top of page
Buscar

Psicanálise e Política - A vida em comum


Olá, bem-vindos. Hoje vamos falar de um tema que, à primeira vista, pode parecer improvável: a relação entre psicanálise e política. Afinal, quando pensamos em psicanálise, geralmente imaginamos o consultório, o divã, o analista sentado atrás do divã, o paciente falando, o analista silencioso. Mas a verdade é que a psicanálise ultrapassa as paredes do consultório. Ela oferece um óculos, uma lente para compreender os fenômenos coletivos, movimentos sociais e até mesmo a cena política. O Brasil, com sua história marcada por contrastes, desigualdades, tensões intensas, paixões políticas, é um terreno fértil para essa reflexão.


O que um psicanalista pode nos dizer sobre a forma como escolhemos nossos governos, nossos governadores, presidentes, líderes? Sobre a maneira como nos dividimos em polos, lados, grupos apaixonados? Sobre a repetição de ciclos de esperança e decepção que parecem se renovar a cada eleição? É sobre isso que vamos conversar hoje: um olhar psicanalítico sobre a política brasileira. Eu sou o Ivan Líger, psicanalista, e esse é o nosso sétimo episódio do Psicanálise Pensar Dia a Dia.


A psicanálise nos lembra que o sujeito é dividido, ninguém é inteiro. Nós temos uma falta estrutural, ninguém é completo, transparente a si mesmo. Somos marcados por essa falta, pelo desejo, pelas contradições internas que nos acompanham por toda a vida. E, quando falamos de política, não estamos lidando com sujeitos racionais que calculam friamente seus interesses. Estamos lidando com seres de desejo, fantasia, angústia.


Eu já tinha falado antes sobre o texto de Freud Psicologia das Massas e Análise do Eu. Esse texto mostra como, ao se inserir numa multidão, o indivíduo abre mão de parte da sua autonomia psíquica para receber em troca pertencimento, identificação e, de certa forma, alívio da solidão. Isso explica por que a política mobiliza tanto amor e tanto ódio.


O eleitor não busca apenas propostas de governo, mas também identificação, acolhimento de suas fantasias, respostas para seus medos. E o brasileiro vive permanentemente entre esperança e desamparo. De um lado, a crença de que um novo governo, um novo projeto político, pode finalmente redimir o país. Do outro, a sensação de abandono, de traição, de que nunca nada vai mudar. Esse movimento é um reflexo psíquico: a oscilação entre confiar e desconfiar, amar e odiar, idealizar e destruir.


Quando falamos de política, precisamos falar da figura do líder. Na perspectiva psicanalítica, o líder muitas vezes ocupa o lugar do pai simbólico, aquele que promete proteção, ordem, segurança e sentido. Lacan vai além. Ele fala não apenas de uma pessoa, mas de uma função: a função de sustentar uma lei, um limite, um ponto de referência.


Na política brasileira, essa função se reinventa o tempo todo. Tivemos o líder messiânico, apresentado como salvador da pátria. Tivemos o líder técnico, que se apresenta como gestor, alguém que supostamente não faz política, mas apenas administra. Tivemos também o líder popular, que encarna a voz do povo. O que se repete é o desejo coletivo de encontrar no governante uma resposta para nossa própria divisão interna. É como se disséssemos: “Olha, toma, conduza minha vida, dê um sentido para o caos que me atravessa.” Isso revela o mal-estar na democracia.


Lidar com a liberdade, com a responsabilidade individual, é difícil demais. É mais fácil transferir essa carga para alguém que se apresenta como figura paterna. E é aí que vemos a transferência coletiva em ação. Na clínica, nós, psicanalistas, sabemos que o paciente deposita em nós tanto amor quanto hostilidade. Na política, o cidadão faz o mesmo com seus líderes: ama-os cegamente e depois os odeia com a mesma intensidade.


Se observarmos com calma, vamos ver que a política brasileira é movida por paixões intensas, paixões que muitas vezes chegam ao fanatismo. Não vou citar exemplos aqui, mas todos sabem do que estou falando: fanatismo, grupos radicais. Freud já dizia que o amor e o ódio estão profundamente ligados; a mesma energia libidinal pode sustentar tanto um quanto outro.


Aqui entram os mecanismos de defesa coletivos. Projetamos no outro partido tudo o que há de mal: corrupção, violência, incompetência. Ao mesmo tempo, idealizamos o nosso líder como alguém que nunca vai se submeter à corrupção, puro, capaz de resolver tudo. Para lidar com as contradições internas, recorremos ao processo de clivagem, de separação. Dividimos o mundo em “nós e eles”, “bem e mal”, sem meio-termo.


É por isso que debates racionais muitas vezes não funcionam. Quando alguém está tomado por paixão política, não adianta mostrar números, estatísticas, fatos. A raiz do vínculo é inconsciente, afetiva, passional. É o inconsciente, e não a razão, que conduz grande parte da cena política. Nesse cenário, o populismo ganha espaço.


Aqui precisamos voltar a Lacan e pensar o conceito de gozo. Diferente do simples prazer, o gozo é uma satisfação paradoxal. Muitas vezes está ligado à dor, ao excesso, a um certo transbordamento. O populismo oferece gozo: o prazer de odiar o inimigo, de se sentir parte de uma luta, de desafiar instituições, de acreditar numa promessa impossível. É isso que fazemos o tempo todo: acreditar numa promessa impossível.


Ele mobiliza afetos profundos, cria pertencimento, alimenta ressentimentos. No Brasil, o populismo se veste de várias formas: ora como promessa de ordem e moralidade, ora como promessa de liberdade total, ora como promessa de reparação histórica. Em todas elas, o mecanismo é o mesmo: vender a ideia de um gozo pleno, de uma completude que nunca virá. E é justamente por nunca vir que o ciclo se repete. A frustração alimenta novo ressentimento, que exige um novo salvador, um novo inimigo, uma nova narrativa.


Mas há algo ainda mais profundo: o inconsciente social brasileiro, que carrega marcas da nossa história coletiva. A escravidão, por exemplo, nunca foi simbolicamente elaborada. Ela se repete nas desigualdades raciais, nas violências cotidianas, na dificuldade de reconhecer privilégios. O colonialismo também deixou marcas: a dependência externa, a busca por modelos estrangeiros, a sensação de que não somos suficientemente autônomos. E o patriarcalismo ainda estrutura nossas relações de poder, reforçando autoritarismos e exclusões.


Se pensarmos bem, vemos como somos apaixonados por produtos dos Estados Unidos, por coisas de fora. Parece que o que é fabricado no Brasil não presta, mas o que vem de fora é marca, é grife. Esses traumas coletivos funcionam como sintomas: desigualdade persistente, corrupção sistêmica, ciclos de esperança e desilusão.


É como na clínica: o sintoma revela algo não elaborado, um ponto de gozo e sofrimento ao mesmo tempo. A questão é: como elaborar esse passado? Como transformá-lo em memória simbólica, em vez de ficar nessa repetição cega?


Chegamos então à democracia. A democracia é, por definição, um regime da falta. Não há completude, não existe líder perfeito, não existe solução total. Isso é insuportável para muitos sujeitos. Afinal, o inconsciente busca sempre algo que dê sentido, que preencha o vazio.


Quando o eleitor não suporta a falta, ele recorre ao autoritarismo. Procura líderes que prometem certezas absolutas, que dizem saber exatamente o que fazer, que vendem a ilusão da unidade total. Mas a psicanálise nos lembra: a falta é estrutural, não há como eliminá-la. Aceite a falta. Dói menos aceitar a falta. O desafio é aprender a conviver com ela — e com a democracia.


Uma democracia madura é aquela que suporta o inacabado, que tolera a diferença, que aceita a falta. No Brasil, essa tarefa é ainda mais difícil, porque as desigualdades sociais produzem urgência. Quem tem fome não pode esperar pelo futuro. Quem se sente abandonado precisa de respostas imediatas. É nesse terreno fértil que as promessas de completude encontram eco.


Se conseguimos perceber o quanto nossas escolhas políticas são atravessadas por amor, ódio, projeções e identificações, talvez possamos nos relacionar de forma mais crítica e menos ingênua com a cena política. O desafio do Brasil é aprender a viver com a falta, aceitar que não haverá líder perfeito, que a democracia é um processo lento, imperfeito, inacabado, e que a saída não está na busca de um messias, mas na construção coletiva de um espaço onde a diferença e a falta possam existir sem serem vividas como ameaça.


Talvez esse seja o verdadeiro trabalho psicanalítico aplicado à política: ajudar a sociedade a suportar a frustração, a reconhecer nossos sintomas coletivos e a não cair na tentação de repetir sempre os mesmos erros em busca de um gozo impossível.


Esse foi o nosso episódio de hoje: um olhar psicanalítico sobre a política brasileira. Eu agradeço a vocês que me escutam. Obrigado por me acompanhar nessa reflexão e até o nosso próximo encontro.

Comentários


Psicanálise Contemporânea
bottom of page