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Racismo e Psicanálise

  • Foto do escritor: Olivan Liger
    Olivan Liger
  • 15 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura




Neste episódio, refletimos sobre o racismo a partir da psicanálise, entendendo-o não apenas como fenômeno social e político, mas como sintoma que atravessa o inconsciente. Falamos de projeção, clivagem, gozo e dos efeitos subjetivos da violência racial, especialmente sobre corpos negros. A partir de Freud, Lacan e Fanon, o episódio convida a pensar o racismo como ferida coletiva que se repete, exige escuta, responsabilização e elaboração — no laço social e no consultório.




Olá, pessoal! Bem-vindos a mais um episódio do nosso podcast.
Hoje nós vamos falar sobre um tema urgente, doloroso, profundamente humano: **o racismo**, visto a partir da lente da psicanálise.

Pois bem, se o racismo atravessa corpos, instituições, famílias, o cotidiano, o nosso dia a dia, ele inevitavelmente atravessa também o nosso inconsciente — lugar onde nossos discursos se revelam, onde nossos afetos se escondem, onde nossas violências se expressam de forma mascarada.

Ninguém passa impune ao racismo.
Nós vemos, dia após dia, racismos sutis sendo manifestados em qualquer lugar.
O objetivo aqui não é oferecer explicações simplistas, mas abrir espaço para pensar o racismo como um sintoma social, uma fantasia coletiva, uma estrutura pulsional e também como uma ferida que se repete diariamente.

Vamos lá. Caminha comigo.

Quando pensamos no racismo, pensamos imediatamente em discursos, leis, práticas políticas, desigualdades sociais. Tudo isso existe e é fundamental reconhecer. Mas a psicanálise nos convida a ir um pouco mais fundo.

Se voltarmos a Freud, vamos lembrar que o ser humano vive entre dois mundos: o mundo externo e o mundo interno. O racismo também. Ele é um fenômeno sociopolítico, mas tem raízes que se alimentam de angústias, fantasias, projeções e defesas que habitam o nosso inconsciente.

O racismo é, muitas vezes, uma resposta psíquica primitiva à diferença. A diferença, para o eu — para o ego —, sempre produz algum grau de angústia. E é o ego que tenta lidar com isso.

Alguns elaboram, outros recalcam, outros transformam essa angústia em ódio, hostilidade, desumanização.
Na lógica do inconsciente — que é totalmente diferente da lógica do eu —, o outro, o semelhante, especialmente quando marcado pela cor da pele, é transformado em depósito de tudo aquilo que o sujeito teme em si mesmo.

Podemos falar, então, do racismo como um mecanismo de defesa, no qual entram a **projeção** e a **clivagem**.

A psicanálise entende que o eu utiliza mecanismos de defesa para lidar com tensões internas. No racismo, dois mecanismos aparecem como centrais.

O primeiro é a **projeção**, quando conteúdos internos intoleráveis — agressividade, impulsos sexuais, culpa, inveja — são atribuídos ao outro.
O outro racializado torna-se perigoso, ameaçador, inferior, porque carrega aquilo que o próprio sujeito não suporta reconhecer em si mesmo.

E a **clivagem**?
A clivagem é a divisão do mundo entre bom e mau, limpo e sujo, civilizado e selvagem.
A clivagem racial estrutura fantasias de pureza e contaminação.

Esses mecanismos são primitivos porque são infantis, mas a sociedade os legitima, os reforça e até os institucionaliza.

O corpo negro, na história ocidental, foi transformado em uma tela de projeção — uma tela onde se escrevem fantasmas brancos: medo da sexualidade, medo da força, medo da diferença, medo da insurreição, medo da própria violência.

O psicanalista Frantz Fanon analisou isso de forma magistral.

A pessoa negra torna-se objeto do olhar branco, capturada por imaginários que antecedem qualquer encontro real. Mesmo antes de conhecer a pessoa, mesmo antes de entrar em contato com o outro.

A experiência subjetiva da pessoa negra não é apenas a de existir, mas a de existir dentro de um olhar que a precede, define e, pior, aprisiona.

Essa captura pelo olhar produz efeitos subjetivos profundos: vergonha do próprio corpo, sentimentos de inadequação, estado constante de alerta, hipervigilância, necessidade de se provar o tempo todo, ataques ao próprio ego como forma de sobrevivência.

É uma ferida psíquica que não nasce no indivíduo, mas no laço social, na sociedade.

O racismo pode ser pensado, numa leitura lacaniana, também como **gozo**.
Essa parte é desconfortável, mas essencial. Para Lacan, não há discurso sem gozo.

O discurso racista é sustentado por uma forma específica de gozo: o gozo sádico de humilhar, hierarquizar, submeter o outro.
Esse gozo aparece na piada racista, na superioridade moral performada, na vigilância sobre corpos negros, nos linchamentos midiáticos, nos microataques cotidianos.

A sociedade branca produz um gozo inconsciente ao manter a estrutura racial.
Isso não significa prazer consciente, mas um prazer psíquico ligado ao domínio, ao controle, à sensação de identidade e pureza.

Quanto mais frágil o sujeito, mais ele tenta encontrar estabilidade atacando o outro.

A psicanálise não patologiza a população negra.
Ela patologiza a violência que atravessa.

Viver em um mundo que constantemente questiona a sua humanidade gera efeitos subjetivos profundos. Muitos pacientes negros chegam ao consultório relatando estado permanente de tensão, medo de serem mal interpretados, necessidade constante de se justificar, dúvidas sobre o próprio valor, exaustão psíquica, raiva reprimida.

É o sentimento de não pertencimento.
É a sobrevivência performática: sorrir mais, falar corretamente, ser impecável, enquanto por dentro há sofrimento.

Esses efeitos não são fragilidades individuais. São respostas a uma violência estrutural.

A clínica com pacientes negros exige ética, escuta ampliada, sensibilidade histórica e capacidade de reconhecer que o sofrimento não nasce apenas no sujeito, mas no campo social.

O silêncio também é um sintoma.
Quando pacientes brancos falam de racismo, muitas vezes o fazem com culpa, desconforto ou minimização.
Quando analistas brancos evitam o tema, isso também fala. Fala da recusa em olhar a própria posição no campo racial.

A psicanálise não pode ser cúmplice do recalque social.

É preciso reconhecer que a branquitude produz privilégios — e esses privilégios também produzem angústias e violências.
O silêncio protege o narcisismo do ego branco.

O racismo não é um problema do outro.
É uma estrutura que organiza a subjetividade de todos nós.
Falar de racismo é falar de si mesmo.

O consultório precisa ser um espaço de elaboração, não de repetição da violência.
Para isso, o analista precisa escutar o impacto subjetivo do racismo, reconhecer suas dimensões históricas e políticas, evitar interpretações que psicologizem o que é estrutural e sustentar a verdade do paciente.

Ajudar a construir narrativas que restituam dignidade.
A cura aqui não é esquecer o racismo.
É transformar o trauma em palavra, e não mantê-lo como ferida silenciosa.

Vamos encerrar lembrando algo fundamental: **racismo é sintoma**.
E, como todo sintoma, revela algo que precisa ser trabalhado.

Ele fala da fragilidade humana diante da diferença.
Fala de uma história marcada pela violência.
Fala das fantasias que nos habitam.
Fala dos medos que não nomeamos.
Fala do gozo que não admitimos.
Fala das feridas que insistimos em negar.

A psicanálise não tem respostas prontas, mas oferece algo precioso: o convite à escuta.
Escutar o outro.
Escutar a si mesmo.
Escutar as vozes que a história tentou silenciar.

Que este episódio inspire reflexões.
Que possamos compreender que o racismo não fala apenas do outro — fala de nós mesmos.
E que, a partir dessa escuta, talvez pequenas transformações internas possam surgir.

Porque a mudança social também passa pelo inconsciente de cada um.

Espero ter contribuído para pensar o racismo a partir da psicanálise.
Que vocês reflitam, que não fujam, não silenciem, não recalquem.

Até o nosso próximo episódio.



 
 
 

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