A solidão que nos habita - Psicanálise e saúde mental
- Olivan Liger

- 10 de nov.
- 5 min de leitura
Neste episódio do Psicanálise do Dia a Dia, refletimos sobre a solidão contemporânea. Vivemos hiperconectados, mas cada vez mais isolados. Com Freud e Lacan como guias, pensamos o que se perdeu no laço com o outro — e o que resta quando o espelho se quebra e o sujeito se vê só com sua falta.
Hoje, vamos falar, mais uma vez, no nosso podcast Psicanálise do Dia a Dia, sobre um tema que assola todos nós no mundo contemporâneo: a solidão.
Vivemos cercados — cercados de vozes, telas, imagens, likes, notificações, matches —, mas quanto mais conectados estamos, mais isolados parecemos ser e nos sentimos. Há algo de contraditório, de paradoxal, na solidão contemporânea: ela não se dá pela ausência do outro, mas em meio ao excesso de presenças superficiais.
Freud talvez dissesse que o sujeito moderno está só entre os outros, porque o laço social — aquele que cria a sensação de estar com o outro, mediado pela linguagem, pelo desejo — foi corroído por algo mais veloz e menos simbólico: a pressa, o consumo, a imagem. E, ao longo das leituras freudianas, Freud vai nos ensinar que o eu não nasce isolado, ele surge de uma relação.
No estádio do espelho, conceito posteriormente desenvolvido por Lacan, o sujeito se reconhece em uma imagem: uma forma ilusória de unidade que depende do olhar do outro. Desde o início, o eu é uma ficção construída a partir de um reflexo — mas esse reflexo não é neutro. É o olhar do outro que nos constitui, e é dele também que tentamos escapar.
A solidão, então, não é a falta de companhia, mas o encontro com a falta que nos habita. É quando o espelho se quebra e o sujeito se vê sem o olhar que o sustentava.
Em um dos textos de Freud, Luto e Melancolia, ele descreve essa experiência de perda: quando o objeto amado se vai, algo do próprio eu se esvai junto.
É o vazio do outro dentro de nós — e é nesse vazio que a solidão encontra sua forma mais cruel, mais aguda.
No século XXI, o laço social se transforma. Vivemos o que Freud chamaria de uma nova configuração do mal-estar na civilização. Antes, o sofrimento nascia da repressão dos instintos, principalmente dos sexuais, os chamados instintos primitivos. Agora, o sofrimento nasce da exigência de prazer constante.
Temos que ser felizes a todo custo. As redes sociais oferecem uma promessa de pertencimento, mas produzem uma angústia silenciosa: o medo de não ser visto, de não ser desejado, de ser apenas mais um entre milhões de rostos digitais.
O eu virtual é uma máscara narcísica, construída para seduzir o olhar do outro.
Mas, paradoxalmente, quanto mais mostramos, menos nos revelamos. A solidão de hoje não é o exílio físico — é o exílio do desejo.
Estamos rodeados de estímulos, mas rarefeitos de sentido. Freud já alertava: o homem busca a felicidade, mas é incapaz de sustentá-la, porque o prazer é fugaz, e o vazio retorna. O sujeito contemporâneo tenta preencher o desamparo com consumo, performance, imagem — mas a solidão insiste. Ela é estrutural, faz parte do que somos.
Freud usou uma palavra forte para descrever a condição humana: desamparo (Hilflosigkeit). O bebê humano nasce vulnerável, dependente, incapaz de sobreviver sem os cuidados de um outro — da mãe. Esse desamparo inicial marca toda a vida psíquica.
O adulto tenta negar essa origem, acreditando que pode bastar a si mesmo.
Ilusão. No fundo, a solidão é a sombra desse desamparo original, desse primeiro desamparo sentido pelo bebê. Quando o outro falha — e ele sempre falha, essa é a questão —, o desamparo retorna, fazendo-nos lembrar da nossa condição primordial.
O mundo atual, com sua promessa de autonomia total, amplifica essa ferida.
Ser autossuficiente é o novo ideal: “eu me basto”. Mas esse ideal é cruel. Ele nega a dependência, o laço, o desejo — e transforma o outro em ameaça. O sujeito contemporâneo é aquele que não pode precisar de ninguém, e por isso vive cercado de coisas, consumindo coisas, mas distante das pessoas.
Em outro texto de Freud, Introdução ao Narcisismo (1914), ele descreve o investimento libidinal do sujeito em si mesmo.
Esse narcisismo é necessário — não há nada de errado nele —, é o que nos dá uma certa unidade psíquica.
Mas, quando o amor próprio se fecha ao outro, esse narcisismo se torna patológico.
Ou seja: uma parcela de investimento libidinal em si mesmo é necessária, é a base da autoestima.
Mas, se eu não me abro ao amor e ao afeto do outro, aí sim há uma patologia narcísica.
A cultura atual reforça esse narcisismo defensivo: “seja você mesmo”, “não dependa de ninguém”, “ame a si antes de amar o outro”. Mas o narcisismo não é amor — é defesa. E a defesa, quando absoluta, isola. Ela torna o sujeito isolado.
O sujeito narcísico teme o outro, teme a alteridade, porque essa alteridade o desorganiza, ameaça sua imagem de completude. Assim, a solidão aparece como um sintoma de um tempo em que o amor se tornou arriscado demais: melhor estar só do que ferido, melhor controlar do que desejar. E Freud diria: onde há defesa, há sofrimento — ninguém se defende de algo bom.
A solidão é o preço que pagamos pela ilusão de segurança emocional.
Mas há também outra forma de solidão — uma que não fere, mas funda.
É a solidão necessária à escuta, à criação, à elaboração psíquica. O analista sabe: o sujeito precisa estar só para escutar o que há de mais íntimo dentro dele.
Em A Interpretação dos Sonhos, Freud fala da escuta do inconsciente como um mergulho no desconhecido. Estar só é o primeiro passo para ouvir essa voz que sussurra sob o ruído do mundo. Não se trata de isolamento, mas de recolhimento. É uma solidão habitada — onde o sujeito se encontra com o próprio desejo, sem o olhar do outro como espelho. E é nesse silêncio que o inconsciente fala — e, quando ele fala, algo em nós se transforma.
Caminhando para o fim, podemos dizer: sob o olhar de Freud, a solidão é parte do ser humano. Ela não é patológica, é uma condição inevitável, constitutiva.
O que adoece não é a solidão em si, mas a tentativa de negá-la.
Freud talvez dissesse que só é possível estar com o outro quando se aceita estar só. Pois aquele que não suporta o silêncio interior buscará, no outro, apenas ruído. Talvez, então, o caminho não seja vencer a solidão, mas escutá-la.
Ela nos fala da nossa falta, da nossa humanidade, daquilo que nenhum algoritmo, relação ou discurso poderá preencher.
E é nesse vazio que nasce o desejo — essa força que nos move, que nos liga, que nos faz humanos.
Se você gostou desse podcast, se você se identifica com essa solidão cercada de pessoas, divulgue o nosso conteúdo. Faça com que ele chegue a mais pessoas que se sentem tão sós quanto nós. Eu até diria que esse episódio merecia estar em rede nacional, porque a solidão se tornou quase um sintoma social da contemporaneidade.
Muito obrigado por estarem comigo hoje.
Agradeço imensamente — e até o nosso próximo podcast.



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