Psicanálise e luto - Sobre o perder e reconstruir
- Olivan Liger

- 30 de out.
- 6 min de leitura
Neste episódio, falamos sobre o luto como uma das experiências mais humanas e inevitáveis da vida. A partir de Freud e do texto Luto e Melancolia, refletimos sobre a perda, os diferentes modos de vivê-la e a singularidade desse processo. Conversamos também sobre os lutos simbólicos, coletivos e desautorizados, mostrando como cada ausência exige tempo, palavra e elaboração. Mais do que dor, o luto pode ser um espaço de reconstrução, memória e reinvenção do viver.
Olá a todos, bem-vindos e bem-vindas. Hoje nós temos um tema um pouco polêmico, um pouco chato, mas necessário de se falar: o luto, entre a perda e a reconstrução do eu.
Bom, o luto é talvez uma das experiências mais humanas que podemos viver.
Ele nos atravessa a todos, sem exceção, e nos lembra de uma verdade da qual muitas vezes tentamos escapar: tudo que é vivo é também finito. E, quando alguém ou algo significativo se vai, ficamos diante de um vazio que não pode ser preenchido de imediato.
Freud, no seu clássico texto Luto e Melancolia, nos diz que o luto é um trabalho psíquico, um trabalho silencioso, feito lá no íntimo do sujeito. Esse trabalho consiste em retirar, pouco a pouco, os fios da vida que estavam enlaçados no objeto perdido. Não se trata de esquecer, mas de aprender a viver de outra forma.
É como alguém que recolhe, com delicadeza, cada peça de um tecido rasgado para costurá-lo em um novo formato, em uma nova narrativa, vamos dizer assim.
Mas como se vive esse trabalho? Como se caminha por esse território? Bom, vale dizer que cada um sente o luto de uma forma, e que é impossível dizer o que o outro está sentindo, porque o luto é singular. Para uns, ele chega com lágrimas incessantes, choros.
Para outros, é um silêncio imenso. Há quem se feche em casa, incapaz de enfrentar o mundo, e há aqueles que precisam falar sobre a perda repetidas vezes: falam, falam, contam, choram, como se as palavras aliviassem a ferida. Há quem chore no momento da despedida, e há quem só chore semanas, meses ou muito tempo depois.
O luto não tem regras, não obedece a fases rígidas, não segue manuais. Mais uma vez: é singular, é íntimo, misterioso, quase indomável. No corpo a gente sente o luto também, ele se faz presente. A comida perde o sabor, o sono se vai, a energia vital parece se dissipar. É como se a ausência se instalasse também no organismo.
E, no entanto, mesmo nesse território sombrio, faíscas de vida surgem: um sorriso inesperado diante de uma lembrança, uma sensação de gratidão no meio da dor, uma música que toca e devolve a memória de algo belo.
Como aceitar que não temos domínio total sobre nós mesmos? Daí surgiram preconceitos que permanecem até hoje.
O luto oscila, e é nessa oscilação que o sujeito vai lentamente aprendendo a conviver com aquilo que falta.
Ao longo da história, os povos criaram rituais para lidar com o luto: velórios, procissões, roupas de luto. Até há pouco tempo, em nossa cultura, se usava preto.
Músicas, cânticos, cerimônias religiosas ou espirituais. Esses rituais ofereciam ao enlutado algo essencial: a possibilidade de simbolizar a perda, de torná-la visível, de compartilhá-la com a comunidade.
Vamos lembrar a Covid: quanta gente não pôde ver o corpo, se despedir desse corpo. Ficou a impossibilidade de simbolizar a perda. Hoje, em uma sociedade acelerada, muitas vezes o luto é silenciado.
Espera-se que, em poucos dias, tudo volte ao normal. A tristeza é medicada, o silêncio é apressado, a ausência é ignorada. Mas o luto não se apressa. Ele exige tempo.
Um tempo que não é o do calendário, mas o tempo do coração. Há dor que não cabe em palavras e há silêncio que fala mais do que qualquer discurso. O luto é esse espaço entre o que se sente e o que não se pode dizer.
É importante lembrar que o luto não se restringe à morte. Há lutos simbólicos que atravessam a vida cotidiana. O fim de um amor, por exemplo, pode trazer uma dor tão intensa quanto a morte. A morte de um pet, de um cachorrinho, pode trazer uma dor tão imensa quanto a de uma pessoa querida.
A aposentadoria, que retira o sujeito do lugar do reconhecimento social, pode ser vivida como uma perda de identidade.
Migrar para outro país significa carregar na mala não apenas roupas, mas também a ausência das ruas conhecidas, dos sabores familiares, das vozes que ficam para trás.
Cada transição da vida guarda em si um luto. Isso é importante lembrar.
E há ainda os lutos desautorizados: aqueles que a sociedade não reconhece como legítimos. O luto de um amor não oficial, de uma relação vivida em segredo, de um amigo que partiu mas não é considerado família — são lutos não autorizados.
O luto de um animal de estimação, que para muitos é apenas detalhe, mas para quem o vive pode ser devastador. Eu já vivi isso. Eu sei o quanto dói perder um animal que você ama muito. Nesses casos, a dor é dupla: a dor da perda e, pior ainda, a dor da invisibilidade.
O luto pode também ser coletivo. Vamos pensar aqui nas guerras, nas grandes catástrofes, na própria pandemia de Covid. Em certos momentos da história, comunidades inteiras foram atravessadas por perdas simultâneas.
O luto coletivo tem uma força peculiar. Ele une, mas também amplia a dimensão da dor. Quando todos sofrem, o sofrimento ganha outra escala, outra forma de ser compartilhado.
Bom, na nossa clínica, no nosso consultório, o luto é um território que exige muita delicadeza. O analista não pode apressar, não deve oferecer consolo rápido e muito menos transformar a dor em diagnóstico. A função, a nossa função no consultório, é escutar, sustentar, oferecer espaço. Muitas vezes, o silêncio do analista é o que permite que o sujeito fale, chore, se cale, repita. O luto na análise não é visto como uma patologia, mas como uma travessia necessária.
Quando alguém conta da sua dor, quando repete uma lembrança, quando chora diante de um silêncio, já está transformando a ausência em palavra. E palavra é, sempre, possibilidade de vida. Esse é o ponto: o luto não busca apagar o que se perdeu, busca sim transformar a relação com a ausência.A pessoa amada não existe mais no real, mas permanece como memória, como marca, como presença simbólica.
O trabalho do luto é permitir que essa lembrança encontre um lugar dentro da gente — não mais como uma ferida aberta, mas como parte da nossa história. Há uma frase que gosto de lembrar: o luto é o preço que pagamos por amar. Só se sofre o luto porque se amou. Só se sente a ausência porque em algum momento houve presença. É duro pensar assim, mas também é belo. O luto é prova de vínculo, de intensidade, de vida compartilhada.
Olha quanta beleza nisso. Talvez, no fundo, o luto seja um aprendizado sobre limites. Ele nos mostra que somos frágeis, que não temos controle de tudo, que a vida escorre entre os dedos. Mas também nos revela nossa capacidade de reconstrução. Mesmo diante da dor podemos nos reinventar. Mesmo na ausência, a gente pode continuar a existir.
Se você que está me ouvindo agora está atravessando um luto, saiba: a sua dor é legítima. Não existe prazo para despedida. Não existe manual que diga como você tem que se sentir ou não. O luto não é uma doença, não é fraqueza, não é fracasso. O luto é amor transformado em ausência. É prova de que algo ou alguém deixou marcas profundas em você.
E talvez seja isso que o luto nos ensina: a viver com aquilo que falta. A continuar, mesmo incompletos, a viver. A carregar dentro de nós a lembrança do que se foi, como quem guarda uma chama pequena, mas suficiente para iluminar o caminho. O luto nos destrói, nos reorganiza, nos transforma. E, no fim, ele nos mostra que mesmo na ausência algo permanece.
Se você está de luto, pense no quanto pode aprender lidando com a ausência, lidando com a falta. Veja os momentos belos e entenda que o luto vai passar. É um processo que atravessamos de qualquer maneira, todo ser humano. Mas respeite o seu momento, porque o luto é singular, é só seu. É único, só você tem a dimensão do que sente.
É isso, pessoal. Eu sou Olivan Lígia, psicanalista, atendo presencial e online para todo o Brasil. Estou aqui em mais um podcast com vocês. Até o nosso próximo.



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