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Implicação do Real pelo Coronavírus -Psicanálise e social

Precisamos encarar a pandemia de alguma forma, seja ela histericamente ou através do que Freud consolidou como negação. O lugar narcisista da humanidade como toda-poderosa dos acontecimentos naturais foi posta em xeque. A chegada de um inimigo real e biológico nos colocou em uma posição de dúvida sobre o que temos controle, que podemos muito menos do que imaginávamos sermos capazes. Aceitar o imponderável pode ser benéfico para nossa relação com a falta. Ou catastrófico para os que se consideravam semi-deuses.


O negacionismo do vírus é uma resposta previsível a um perigo eminente e microscópico. Realizado mais frequente em um comportamento de massas, ele pode assumir três formas, de acordo com Dunker:


1. O tolo que desconhece a importância do medo, mantendo-se desprevenido e desinformado. Projetando a culpa nos outros.


2. O confuso, que lida com a angústia transformando-a em medo real. Este acompanhará todos os boatos e entrará em pânico no supermercado estocando papel higiênico.


3. E o desesperado, que transformará todo o medo perante o Real em motivo para aumento de angústia. Neste caso, o sujeito já estava inquieto e o vírus veio dar corpo aos seus fantasmas.


O ser humano possui a tendência natural de ver sinais e mensagens premonitórias em catástrofes naturais. Assim como a AIDS foi um castigo divino aos homossexuais e pervertidos sexuais, o coronavírus é uma conspiração governamental para controlar a superpopulação e a pobreza. Os negacionistas dirão que os dados são exagerados, que tudo não passa de uma farsa midiática para nos confinar dentro de casa. A doença é um pretexto ideal para renovar os preconceitos e trazer de volta fantasmas do passado, revitalizando complexos infantis (DUNKER, 2020). A tendência de ler a doença como um sinal não passa de uma resistência em aceitar que existem fatores que não dominamos.

Mas uma coisa pode-se concordar com os liberais e extremistas: nunca se poderia imaginar que algo como um vírus serviria para justificar e legitimar métodos de controle estatal e regulamentação da vida privada, medidas totalitaristas impensáveis em nossa civilização democrática.


É realmente difícil de assimilar que a atual catástrofe não passa de uma eventualidade natural em sua forma mais pura, que não guarda nenhum significado secreto ou mensagem divina. Na ordem mais ampla das coisas, somos apenas uma espécie sem importância especial. Epidemias como essa nos lembram da contingência final e da falta de sentido de nossas vidas: não importa quão magníficos sejam os edifícios que construímos ou as descobertas que fizemos, uma causalidade natural estúpida como um vírus ou um asteroide pode acabar com tudo.


A afirmação do vice-ministro iraniano, Iraj Harirchi, de que este vírus é democrático, e não discerne entre pobres e ricos ou entre políticos e cidadãos comuns.” é aceita por muitos ignorantes da interminável luta de classe. O discurso é que estamos todos no mesmo barco negligencia classe social, a cor, o gênero, e a etnia de cada um. Os ricos podem pagar por tratamento em hospitais privados, enquanto a população negra é a mais dizimada pelo vírus.


Quarentena é um privilégio daqueles que possuem moradia, emprego estável e a possibilidade de home office. E aqueles que precisam trabalhar a quilômetros de suas casas para sustentar uma família inteira? Muitas coisas têm que acontecer no exterior inseguro para que outros possam sobreviver em sua quarentena privada. Uma epidemia de vírus ideológicos que estavam adormecidos em nossas sociedades: notícias falsas, teorias conspiratórias paranóicas, explosões de racismo, etc, renasceram para nos aterrorizar.


O “eu” é feito à imagem e semelhança do outro, portanto está sempre alienado ao seu outro-ideal (ou eu-ideal). A imagem do eu é também a imagem de nossos semelhantes, que vamos amar, a partir do nosso próprio narcisismo, ou odiar, na medida em que ameacem a integridade de nosso eu (Lacan, 1953-54). O que acontece quando a pandemia sintetiza nossa relação com o outro? Nossos pares agora são uma ameaça real, de contágio e transmissão pelo contato. O perigo não vêm de nós, mas sim do outro. O vírus não só ameaça nossa integridade física, como também nosso senso de identidade, nosso senso de pertencimento à uma ordem social pautada na filiação com o semelhante. Cria-se uma atmosfera paranóica, na qual desconfiamos da integridade do outro.


O que será das crianças, dos bifes com olhos que constituem seu eu através da imagem do semelhante no estádio do espelho? Como será possível uma identificação e uma separação do Outro quando se está isolado dentro de casa? Interagir com outras crianças é a forma de construir suas subjetividades, que ajudam o desenvolvimento da criatividade e permite a expressão do desejo. Existe um risco de aumento de estruturas psicóticas com crianças que não conseguem se desprender do desejo materno?


A pandemia tem muito a nos ensinar sobre o alcance da capacidade humana de controlar o real. Nossos destinos podem ser planejados, mas nunca se pode ter certeza de nada. Caem por terra as ilusões imaginárias de controle e dominação sobre o mundo. Descobrimos que podemos muito menos do que pensávamos, teremos que aprender a conviver com uma falta primordial de controle que por anos o discurso da ciência tentou negar. Isso abre a possibilidade da humanidade se tornar mais humilde perante ao incontrolável, menos obsessiva por completude.


A única coisa clara é que esse vírus veio para despedaçar a própria base de nossas vidas, causando não só uma quantidade imensa de sofrimento, mas também destruição econômica concebivelmente pior do que a Grande Recessão.

Sobre os discursos dos mestres, dos líderes das nações, eles estão pautados em absurdos, como Bolsonaro negando os fatos e Trump os distorcendo. O laço social está fragilizado pelas necessidades básicas, a falência do discurso capitalista e do neoliberalismo que o sustenta é uma súplica por um Estado que tenha um bom sistema de saúde. Um Outro que sustenta e que garanta o mínimo necessário para nos mantermos civilizados.


O confinamento domiciliar, a atmosfera de imprevisibilidade e terror também trará consequências negativas para a subjetividade. Cada um de nós terá de lidar com os traços histéricos e hipocondríacos que a constante cobertura midiática do vírus traz como consequência. Um dos traços da hipocondria diz respeito à sua sugestionabilidade perante a informações alheias. Ouvir notícias ininterruptamente sobre a epidemia ao mesmo tempo gera angústia e é compulsivamente atraente como um gozo histérico. Criam-se sintomas paralisantes e terror profundo de sair do conforto de sua bolha.


Outra saída histérica é a belle indifférence, capaz de negar a realidade mais gritante e construir sua própria, tanto exorbitante como menosprezante (Dunker, 2020). Se os fatos estiverem contra você, tenha uma crise histérica atacando todos que estão contra sua ideologia (assim como nosso presidente é perito em fazer).


O isolamento vai definitivamente exacerbar aqueles que já demonstravam sintomas. O ansioso terá mais ataques de pânico, o depressivo afundará ainda mais no abismo, o paranóico se verá mais perseguido e o hipocondríaco terá novas formas de gozo. Por outro lado, estamos vivendo uma experiência inédita de desaceleração. Ao invés da urgência da antiga normalidade, teremos que nos adaptar à mais tempo conosco, com a solidão do sujeito. Temos mais tempo para pensar no que queremos, no desejo e em quem somos. Mesmo sendo apavorante a ideia de passar tempo com si mesmo, é na solidão que conseguimos almejar objetivos para a vida que temos. Achar aquele traço singular que apenas nós mesmos possuímos e, quem sabe, lidar melhor com nossos sintomas.


Ainda assim, teremos uma crescente demanda por psicoterapias ou por escutas de apoio e cuidado. É necessário apontar os casos em que, na verdade, a quarentena traz angústia para o sujeito preso em sua casa com outras pessoas demandando constantemente. Mães imploram para terem um tempo a sós, sem ter que responder aos filhos. Mulheres estão sendo forçadas a permanecer com seus agressores em tempo integral, crianças e mulheres vítimas de abuso são obrigadas a permanecer em um ambiente hostil 24 horas por dia.


É apenas quando somos impossibilitados de termos contato com o outro que sentimos falta do que tínhamos. Quando o distanciamento é questão de sobrevivência, a experiência do encontro é plenamente vivida e o valor do outro é dada sua devida importância. Mesmo se a vida eventualmente retornar a alguma semelhança de normalidade, não será o mesmo normal que experimentamos antes da eclosão do coronavírus. É um fato funesto que precisemos de uma epidemia desta magnitude para podermos repensar as características básicas da sociedade em que vivemos. Não podemos continuar do jeito que temos feito até agora, uma mudança radical é necessária.


Žižek comenta, em seu novo livro dedicado à pandemia, os cinco estágios de luto que passamos nesse período conturbado:

Primeiro, há uma negação (nada sério está acontecendo, alguns indivíduos irresponsáveis estão apenas espalhando o pânico); depois, raiva (geralmente de forma racista ou anti estatal: os chineses são culpados, nosso Estado não é eficiente ...); a seguir vem a barganha (OK, existem algumas vítimas, mas é menos grave do que a SARS e podemos limitar os danos ...); se isso não funcionar, surge a depressão (não nos iludamos, estamos todos condenados) ... mas como seria o estágio final de aceitação? (ZIZEK, 2020)


A resposta à sua pergunta pode ser encontrada nas últimas páginas de seu livro, onde ele evoca o conceito de sinthoma lacaniano. De acordo com ele, precisamos tentar nos identificar com nosso sintoma, sem pudor ou vergonha. Assuma para si seus pequenos rituais, fórmulas e peculiaridades que ajudem a manter sua sanidade mental. Tudo o que pode funcionar é permitido aqui se ajudar a evitar um colapso mental, até mesmo formas de negação fetichista. (Zizek, 2020). O importante é não perder a cabeça.



A análise virtual


Pode-se afirmar que o Real invadiu a realidade da maioria do planeta na forma de um vírus letal e sem precedentes para comparação. Não conhecíamos nada sobre sua estrutura, sua capacidade de se alastrar em questões de meses ou sua maestria em mutação. O real do vírus implica diretamente na clínica, fechando os consultórios, impedindo o acesso aos divãs, descontinuando o tão valorizado setting analítico. Muitos psicanalistas, pela primeira vez, tiveram de deixar seus preconceitos de lado e atender remotamente. É adaptar-se aos recursos da internet ou morrer.


O Real nos aprisiona em nome da própria saúde, em nome da saúde coletiva e em nome dos outros. É uma responsabilidade de respeitar a quarentena com consequências físicas para o laço analítico. Mas, como psicanalistas, temos um comprometimento de não deixar nossa práxis interromper-se, cair no limbo e no esquecimento. Enquanto houver mal-estar, haverá de ter psicanálise.


O pivô da análise é a transferência. O analista se faz presente pelo seu ato, no aqui e agora, pelo semblante de objeto a. Assim se estabelece o discurso do analista que faz o sujeito produzir seus significantes mestres. É o olhar e a voz como pulsões que presentifica o analista como semblante na análise, não seu corpo imaginário. (FCL - MS, 2020). Então por que não uma análise online?


Mesmo através de telas, o analista coloca em ato o fantasma do sujeito, permitindo o advento de seu inconsciente (Lacan, 1964). Enquanto isso, o analisante comparece com seu gozo, construído na língua, em seus equívocos e atos falhos que não deixam de acontecer à distância. A função de conduzir a análise permanece ao analista, cabe a ele escutar e interpretar as angústias do sujeito e não responder suas demandas de amor (Lacan, 1960-61). Por vezes olhando além da câmera, se afastando e saíndo de vista, mas se fazendo presente e atuando o corte e suspensão da sessão no momento preciso.


O sujeito não só se expressa através da linguagem. O corpo fala. Por isso é importante o analisante manter sua câmera ligada para o analista perceber as nuances na enunciação e nas formas do discurso. Claro que, devido à situação anormal de atender o paciente dentro de sua própria casa, eventos externos podem interferir na análise. Familiares podem invadir o espaço, animais de estimação pular no meio da tela, etc. O importante nessas ocasiões é agir, receber o acaso e usá-lo a favor da análise. O real está aí nos tropeçando a todo o momento, como analistas precisamos tirar proveito desses tropeços.


Falhas técnicas estão fadadas a acontecer. A tecnologia, como o resto, não alcançou a plena completude. Falhas na conexão podem interromper um corte perfeito ou descontinuar um significante. Como saber se um silêncio é um silêncio ou uma linha que se obstrui?


A análise online não é uma opção qualquer, é uma imposição circunstancial de nossa situação atual e um imperativo ético para apaziguar o sofrimento dos analisandos. Birman (2021) afirma que aceitou a análise online para “não deixar os analisandos no vazio por tempo indeterminado” (p. 147) que o coronavírus trouxe como consequência. O mesmo psicanalista defende a eficácia da análise online, reiterando a presença do corpo pelos registros de imagem e da voz disponíveis nas plataformas de videochamada. A pulsão escópica, de acordo com Miller (2005), é responsável pela implicação do imaginário no gozo do sujeito, enquanto a pulsão invocante nos aproxima da estrutura linguística do inconsciente. Lacan afirma que “no nível escópico, não estamos mais no nível do pedido, mas do desejo, do desejo do Outro. É o mesmo no nível da pulsão invocadora, que é a mais próxima da experiência do inconsciente" (Lacan, 1964/1998, p. 102).


Os limites estendidos da angústia de castração pelo coronavírus resultaram em analisandos dando o máximo de si, já que o dia seguinte se torna tão incerto. Limitado em sua circulação, o aumento na produção segue a lógica de não ter outra saída senão a de resolver isso que o acompanha. A possibilidade de um trabalho mais intenso, por parte do sujeito, é um fenômeno singular que a impossibilidade de planejamento futuro, graças ao vírus, impulsionou a clínica online. Já outros analisandos utilizaram a pandemia como pretexto para interromper a análise ou para solicitar a diminuição do preço, exacerbando a insistência do sujeito de não querer lidar com a falta e continuar a gozar com seus sintomas. É através do manejo do analista que o sujeito pode se responsabilizar pelo seu desejo e subjetivar seu gozo, entendendo o preço a se pagar por suas decisões.




O luto na pandemia


O Brasil vive em uma necropolítica, atacando o discurso científico e precarizando o sistema de saúde em prol do lucro neoliberal. É um “salve-se quem puder [pagar]” sem nenhum suporte oficial frente ao desamparo causado pelo coronavírus. Nossa necropolítica é caracterizada pelo descarte de corpos como se fossem lixo comum e a decisão governamental de quem merece sobreviver ou não à guerra biológica contra o coronavírus.


Com mais de 200 mil mortos, esse [des]governo implica diretas consequências ao processo de luto daqueles que conseguiram escapar. Os ritos fúnebres que dariam um contorno simbólico ao Real da morte foram interditados para impedir a contaminação, deixando os entes queridos em um perpétuo estado de reticência, sem a possibilidade de transitoriedade entre o antes e o depois, a vida e a morte.


Vimos a lotação dos cemitérios e necrotérios, enterros em massa em valas comunitárias cavadas por retroescavadeiras. Sem conseguir acompanhar seus mortos, amigos e familiares tiveram que lidar com a incerteza do enterro de sacos pretos que continham corpos aleatórios. Foi preciso encarar uma banalização da morte para preservar vidas. Sem o tempo para compreender, existe um apagamento do sujeito falecido, sem lápide ou identificação. No final, todos são iguais debaixo da terra. O objeto perdido não produz o estatuto simbólico necessário para o luto.

Em uma live feita no dia 24 de abril de 2020, Maria Homem explicita a importância do luto em relação com uma transformação daquilo que era o ser enlutado antes e depois da perda. Sua afirmação nos remete ao Seminário I, onde Lacan afirma que o eu é constituído através do outro. Somos outra pessoa depois da perda de um estatuto anterior. Todos estamos vivendo um luto coletivo, uma aceitação forçada da mudança no status quo. Claro que, assim como toda a perda, mecanismos de defesa como a negação, menosprezo e hipervalorização são respostas comum frente à castração fatal da morte.


Um luto bem sucedido deve proporcionar ao sujeito a possibilidade de carregar o traço identificatório com o objeto perdido para o resto de sua vida. Carregá-lo em seu arsenal como um algo a mais, não uma perda insondável. O luto na pandemia nos remete mais à uma melancolia. Como Freud mesmo articulou, “a sombra do objeto [abandonado] caiu sobre o eu” (Freud, 1915) e agora é julgado como se fosse o próprio objeto perdido. Sem a possibilidade de se separar dos falecidos, seus fantasmas parecem levar uma parte do eu consigo para o fim da vida.


Como se não bastasse um, sofremos um segundo luto ao passar pela perda sem os rituais funerários que culturalmente estávamos acostumados. Agora mais do que nunca, o sujeito é convocado a inventar novas formas de manter seu desejo aceso. Se faz necessário criar formas subjetivas de lidar com a perda e sair do modelo prêt-à-porter.




Considerações finais sobre a guerra


Muitos comentadores sobre a pandemia gostam de traçar um paralelo entre o combate mundial a um vírus com uma guerra. Essa comparação evidencia a quebra da noção (imaginária) de normalidade e a implicação imediata do sujeito com o real da morte. Em uma entrevista feita pela revista Isto É, sobreviventes da 2ª Guerra comentam como essa comparação é “idiota”, já que muitos estão confortavelmente entretidos com televisões e computadores dentro de suas casas, enquanto na guerra morreriam de fome. Outro comentário curioso é do inglês Joan Hall, afirmando que “Durante a guerra, podíamos sair para tomar uma bebida, ou jantar. Este vírus te obriga a ficar em casa. No que me diz respeito, prefiro os anos de guerra a esse vírus!”. Tudo depende do ponto de vista.


Servindo-me desse paralelo feito pelo discurso comum, gostaria de finalizar trazendo alguns pontos feitos por Freud, em seu artigo intitulado Considerações atuais sobre a guerra e a morte, escrito em 1915 sobre a Primeira Guerra.

Sobre a posição do Estado frente à uma guerra, Freud afirma que este “permite-se qualquer injustiça, qualquer ato de violência que desonraria o indivíduo”. Mesmo a pandemia não se tratando de uma guerra literal entre países, parece que nosso governo adotou medidas muito semelhantes. Sem considerar os desafios individuais que o povo brasileiro sofre com a pandemia, o presidente decidiu copiar seu mestre americano ao reproduzir um discurso negacionista, colocando como prioridade o lucro neoliberal das multinacionais parasitárias e ignorando o número desmesurado de mortos.


Ainda nessa linha, Freud aponta que, “quando a comunidade suprime a recriminação, também cessa a repressão dos maus apetites”, se referindo às atrocidades que o ser humano é capaz de cometer contra si mesmo quando os limites culturais são levantados. Assim podemos começar a entender um pouco melhor o aumento de atos violentos reportados pela mídia e a brutalidade policial perante às minorias (principalmente nos Estados Unidos).


Outra afirmação que se encaixa perfeitamente com a conduta do presidente brasileiro é a de que “nosso intelecto só pode trabalhar de maneira confiável se estiver preservado das influências de fortes emoções afetidas”. Bolsonaro parece propositalmente colocar seu intelecto de lado e atuar com base em suas emoções perante qualquer assunto. Sua opinião pessoal se tornou lei. A ciência é atacada enquanto continua com um discurso irracional, sem considerar dados levantados por outros muito mais capacitados que ele.


Em continuação ao artigo anterior, Freud acrescenta seu artigo intitulado Nossa relação com a morte. É interessante destacar suas observações feitas sobre como lidamos com o real da morte, antes e depois de uma tragédia.


Precedentemente a guerra, “mostrávamos a tendência inconfundível de deixar a morte de lado, de eliminá-la da vida” (Freud, 1915). O assunto da morte era um tabu desnecessário de se comentar, racionalizado ao máximo e cercado de misticismo. Com o coronavírus, temos que encarar um número grotesco de mortes, que poderiam ser evitadas se nossos governantes escolhessem a vida ao invés da bolsa.


Outro ponto levantado por Freud é a irrepresentabilidade de nossa própria morte. Nosso inconsciente não trabalha apenas com negações e afirmações, ele é articulado pelas ambiguidades simbólicas. Portanto, uma sentença fatalista é impossível de ser inscrita em nossa psique. O inconsciente está convencido de sua imortalidade, mesmo vendo os números de mortes crescerem exponencialmente nos noticiários.




Referências Bibliográficas

  • BIRMAN, Joel. O trauma na pandemia do coronavírus. Ed. Civilização Brasileira, 2020.


  • DAVIS, Angela, e KLEIN, Naomi. Construindo Movimentos: uma conversa em tempos de pandemia. Boitempo Editorial, 2020.


  • DUNKER, C. A arte da quarentena para principiantes. 2020 by Boitempo Editorial


  • FREUD, Sigmund. Considerações contemporâneas sobre a guerra e a morte. 1915. In: Cultura, Sociedade, Religião: O Mal-estar na Cultura e outros Escritos (p. 99). Ed. Autêntica


  • Fórum do Campo Lacaniano - MS. Psicanálise e Pandemia. Editora ALLER, 2020.


  • HARARI, Yuval Noah. Notas sobre a Pandemia e Breves Lições para o Mundo Pós Coronavírus. Trad. Odorico Leal. São Paulo: Companhia das Letras, 2020


  • LACAN, Jacques. O Seminário – Livro 1 – Os Escritos Técnicos De Freud (1953-1954). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1986.


  • LACAN, Jacques. O seminário - livro 8 - A transferência (1960 – 61). Rio de Janeiro:

Jorge Zahar Ed., 1992.


  • LACAN, Jacques. O Seminário - Livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1988.


  • SANTOS, Boaventura de Sousa. A cruel pedagogia do vírus. São Paulo: Boitempo, 2020.


  • ŽIZEK, Slavoj. Pandemic! COVID-19 Shakes the World. 2020 by OR Books

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Psicanálise Contemporânea
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