BRASILEIROS NO EXTERIOR: Entre o Exílio Emocional e a Necessidade de Um Cuidado Psíquico que Fale a Mesma Língua
- Olivan Liger
- 29 de jul.
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Nos últimos anos, o número de brasileiros vivendo no exterior tem crescido significativamente. Motivados por diferentes razões — oportunidades profissionais, segurança, estudos ou mesmo por amor — muitos enfrentam um fenômeno que vai além do choque cultural: o sofrimento psíquico silencioso da imigração. Por trás das fotos sorridentes em redes sociais, há muitas vezes histórias marcadas por solidão, ansiedade, desamparo e um sentimento de não pertencimento que se acentua com o passar do tempo. Viver fora do Brasil pode representar uma ruptura profunda com referências afetivas e simbólicas fundamentais. A língua, os costumes, o clima, os códigos sociais e até os modos de ser e estar no mundo são diferentes. Essa distância cultural produz uma espécie de exílio emocional, no qual o sujeito sente-se estrangeiro não apenas no novo país, mas também em si mesmo.
A experiência migratória é, frequentemente, marcada por um luto invisível. Há a perda da familiaridade cotidiana, da espontaneidade da língua materna, da rede de apoio — família, amigos, vizinhos — e de uma história de pertencimento construída desde a infância. Esse luto é muitas vezes desautorizado socialmente: “Você está num país melhor, não tem do que reclamar”. A pressão para “dar certo” no exterior acaba por silenciar o sofrimento, criando um abismo entre o que se vive e o que se pode dizer.
É nesse contexto que a escuta psicanalítica ou psicoterapêutica torna-se uma ferramenta fundamental. No entanto, não basta qualquer profissional: há uma crescente demanda por terapeutas brasileiros, capazes de escutar não apenas a língua portuguesa, mas o mundo simbólico que ela carrega. Palavras são mais que significantes — elas trazem histórias, afetos e marcas subjetivas profundamente enraizadas na cultura de origem.
A psicanálise nos ensina que o sofrimento não se expressa apenas nos sintomas visíveis, mas nos silêncios, nos lapsos, nos deslocamentos. Para muitos brasileiros no exterior, esse sofrimento aparece sob a forma de crises de ansiedade, episódios depressivos, conflitos de identidade, dificuldades de adaptação, sensação de fracasso ou vazio existencial. Em muitos casos, há ainda um retorno de questões infantis e traumas passados, intensificados pelo desamparo do novo contexto.
O atendimento terapêutico feito por profissionais brasileiros que compreendem o peso simbólico da migração é, portanto, mais do que uma comodidade: é uma necessidade clínica. Esses profissionais são capazes de captar nuances culturais, expressões idiomáticas, códigos emocionais e referências que escapariam à escuta de um terapeuta de outra nacionalidade. Mais do que entender a língua, é preciso compreender o sofrimento em sua estrutura cultural e subjetiva.
Além disso, a terapia online tem se mostrado uma ponte fundamental entre o sujeito e seu país de origem. A possibilidade de fazer análise com um profissional brasileiro, ainda que à distância, reestabelece um vínculo simbólico com a terra natal, oferecendo um espaço onde o exílio psíquico pode ser elaborado.
Por fim, é importante compreender que migrar não é apenas mudar de país, mas é também confrontar-se com os próprios limites, desejos e fantasmas. É uma travessia que pode produzir crescimento, mas também rupturas. E, como toda travessia, exige um espaço seguro para que os afetos possam ser reconhecidos e elaborados. A psicanálise oferece esse espaço, onde o sujeito pode reencontrar-se consigo mesmo — mesmo estando longe de casa.