ESBOÇO DE UMA ANÁLISE PSICANALÍTICA DA CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA DE DONALD TRUMP
- Olivan Liger
- 31 de jul.
- 5 min de leitura
1. Formação familiar e infância
Donald Trump nasceu em 14 de junho de 1946, quarto filho de Mary MacLeod Trump (mãe imigrante da Escócia) e Fred Trump Sr. (magnata imobiliário em Queens). A família vivia em um ambiente de alta prosperidade social, mas com uma dinâmica interna marcada pela rigidez emocional e pela violência psicológica.
Seu pai, Fred Sr., era descrito como controlador, crítico e emocionalmente frio — Mary L. Trump o caracterizou como um “sociopata funcional” que buscava o poder e o lucro acima de tudo, negando apoio emocional e nutrindo rivalidades entre os filhos.
Sua mãe, Mary MacLeod, embora envolvida religiosamente e caridosa em público, era emocionalmente distante e fragilizada pela doença osteoporótica e pela submissão ao marido, exercendo pouca influência psíquica sobre Donald.
Donald testemunhou brutalidade psicológica contra seu irmão mais velho, Fred Jr., que desenvolveu alcoolismo e morreu prematuramente, reforçando um padrão de desvalorização emocional.
Aos 13 anos, foi matriculado na New York Military Academy, onde aprendeu lições sobre dominação e hierarquia, potencializando sua tendência à agressividade e ao controle.
2. Estrutura psíquica e mecanismos de defesa
Narcisismo e busca de atenção
Trump desenvolveu um funcionamento caracterizado por narcisismo extremo, com elevada extroversão, baixa empatia e baixa estabilidade emocional, segundo estudos de personalidade. Ele mesmo afirmou que é um “gênio estável”, tentando resistir a críticas sobre sua sanidade mental. Essa postura reforça um narcisismo grandioso, uma defesa contra o medo de ser insignificante.
Supressão emotiva e aversão à vulnerabilidade
Educado num lar onde exibir emoções era visto como fraqueza, Trump internalizou que expressar afeto ou dúvida seria intolerável. Mary L. Trump observa que “Meu tio não entende que ele ou alguém tem valor intrínseco” e que sentimentos eram vistos como inúteis no contexto familiar.
Deslocamento de raiva e hostilidade como instrumento
Frente à incapacidade de lidar com emoções vulneráveis, desenvolveu um padrão de expulsão da raiva contra alvos externos: crítica sistemática de oponentes, demagogia, uso de linguagem hostil e retórica autoritária.
3. Comportamentos e decisões como reflexo psíquico Estilo comunicacional polarizador
Sua retórica — simples, repetitiva, extremista — ressoa com mecanismos de atingir e manter o controle emocional, criando uma narrativa dualista, que reduz a complexidade e fortalece sua posição de comando.
Resistência a falhar ou parecer fraco
Trump evita encarar falhas. Ele nega erros, culpa terceiros e inverte ou nega fatos quando contraditos. Essa postura reforça uma estrutura defensiva de negação, evitando admitir vulnerabilidade.
Repetição e espetáculo
Trump é orientado ao espetáculo: gosta de ser o centro das atenções, reproduz a postura do pai de que “a aparência importa mais que o conteúdo real”, e usa a própria mídia como palco. O mecanismo de repetição é uma forma de reafirmar poder e assegurar visibilidade
Decisões impulsivas e simbólicas
Seus atos muitas vezes têm carga simbólica e impulsiva – imposição de políticas com muro fronteiriço, retórica acirrada em torno da imigração, ataques a ministros do STF, Twitter como ferramenta de comando: tudo parte de uma lógica de afirmação contínua do eu narcisista ameaçado.
4. Interpretação psicanalítica: vínculo infantil e padrões adultos
Ligação com o pai e imitação de traços
Ver-se atraído pelo modelo de Fred Sr., cuja aprovação era escassa e condicional, fez com que Donald internalizasse o padrão de dominação e frieza emocional como seu reflexo ideal. Para conquistar poder, tornou-se o que temia ser: caprichoso, autoritário, incapaz de vulnerabilidade.
Defesas primitivas e ego ampliado
Trump apresenta defesas típicas de personalidades narcisistas: idealização-depreciação dos outros, negação da ambivalência interna, uso de identidades externas (magnata, celebridade, presidente) para manter coerência psicológica — ao custo da introspecção
Ausência de autoconsciência emocional
Isso reforça uma estrutura imatura de ego, centrada no imediato, no poder e na autopromoção.
Infere-se Trump recusa conclusões sobre si, evitando refletir sobre sua evolução interior ou desenvolvimento emocional.
SEMELHANÇAS ENTRE A CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA DE ADOLPH HITLER E DONALD TRUMP
1. Infância marcada por experiências de desamparo e humilhação
• Hitler cresceu sob um pai autoritário e agressivo (Alois Hitler), que impunha disciplina rígida e frequentemente o humilhava. A mãe, Klara, era superprotetora, o que gerou um conflito afetivo intenso entre medo e desejo de aprovação paterna
• Trump teve um pai frio, competitivo e controlador (Fred Trump Sr.), que estimulava rivalidades entre os filhos e os avaliava pela força e sucesso. A mãe era emocionalmente distante.
Em ambos, a necessidade de provar valor e força tornou-se central, levando a uma defesa contra o sentimento de fraqueza ou abandono.
2. Narcisismo defensivo e idealização do poder
Tanto Hitler quanto Trump apresentam traços de narcisismo patológico, descritos por Freud e por autores como Heinz Kohut:
Buscam constantemente admiração e obediência, precisando de uma massa que confirme sua grandiosidade.
Usam uma retórica salvacionista: colocam-se como líderes capazes de restaurar uma glória perdida (Hitler: “restaurar a grandeza da Alemanha”; Trump: “Make America Great Again”).
Possuem baixa tolerância à frustração: críticas são percebidas como ataques pessoais e respondidas com raiva, negação ou desvalorização.
os se percebem como figuras excepcionais, quase messiânicas.
3. Uso de defesas primitivas do ego
Projeção: atribuem aos inimigos características que não aceitam em si mesmos. Hitler projetava em judeus e minorias suas fragilidades; Trump frequentemente projeta nos adversários políticos a desonestidade ou corrupção que lhe são imputadas.
Clivagem: dividem o mundo em “bons” e “maus”, sem nuance. Esse maniqueísmo favorece a mobilização de seguidores.
Onipotência: ambos se percebem como figuras excepcionais, quase messiânicas.
4. Relação com as massas: identificação projetiva
Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), descreveu como líderes carismáticos tornam-se o ideal do ego dos seguidores.
Hitler mobilizava o ódio como cimento grupal.
Trump, embora em contexto democrático, usa uma lógica semelhante: discurso emocional, repetitivo e simplista, que reforça identidades grupais e um inimigo comum (imigrantes, elites liberais, mídia).
5. Conclusão
A análise psicanalítica sugere que Donald Trump desenvolveu uma estrutura psíquica narcísica, sustentada por defesas de negação, projecção, deslocamento e idealização de poder. Seu comportamento adulto — explosivo, arrogante, controlador — pode ser lido como repetição de uma infância emocionalmente negligenciada, marcada pela rigidez paterna e pela carência afetiva materna.
Seus modos de comunicar-se, tomar decisões e reagir emocionalmente refletem uma personalidade construída para evitar vulnerabilidades profundas, manter uma imagem onipotente e recusar a introspecção emocional. A obsessão por atenção, aprovação externa e controle público compõe o núcleo de sua dinâmica psíquica.
No entanto, as diferenças de contexto histórico e intensidade dos sintomas são cruciais. Hitler atingiu uma forma de funcionamento psicótico-paranoide, com projeto genocida. Trump, embora compartilhe mecanismos semelhantes, demonstra um funcionamento mais adaptado ao jogo democrático, ainda que agressivo e desestabilizador.
Referências:
– COOLIDGE, Frederick L. & SEGAL, Daniel L. – Was Hitler a Narcissistic
Psychopath? Nova York: Oxford University Press, 2007.
– GARTNER, John – Rocket Man: Nuclear Madness and the Mind of Donald Trump.Nova York: Skyhorse Publishing, 2018.
– LANGER, Walter C. – The Mind of Adolf Hitler: The Secret Wartime Report. Nova York: Basic Books, 1972. (original escrito em 1943)
– LEE, Bandy X.(org.) – The Dangerous Case of Donald Trump: 37 Psychiatrists and Mental Health Experts Assess a President. Nova York: Thomas Dunne Books/St. Martin’s Press, 2017.
– TRUMP, Mary L. - Too Much and Never Enough; how my family created the World's Most Dangerous Man. New York, Simon & Schuster, 2020
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