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Amor na atualidade - Psicanálise e afetos

  • Foto do escritor: Olivan Liger
    Olivan Liger
  • 18 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Olá, sejam bem-vindos e bem-vindas ao nosso segundo episódio do canal Psicanálise – Pensar o Cotidiano, Pensar o Dia a Dia. Hoje nós escolhemos o tema amor, porque é um assunto muito constante em nossos consultórios: as questões sobre relações, as formas de se relacionar. Tudo isso nos leva a tomar o amor como um tema importante para refletir e falar um pouco sobre ele.

Bom, historicamente, o amor nunca foi um fenômeno estático, sempre foi muito dinâmico. Ele é, antes de tudo, uma construção cultural e psíquica. Na Antiguidade, por exemplo, o amor era frequentemente associado ao destino, ao sagrado ou até a alianças políticas e sociais. Já na Idade Média, sob forte influência do Cristianismo, o amor se tornou idealizado e impossível, enaltecido no amor cortês.

Na Modernidade, especialmente a partir do século XIX, o amor romântico tornou-se um valor central: o amor-paixão, intenso e desmedido, com a promessa de fusão entre desejo, afeto e parceria de vida. Essa idealização persiste, mas sofreu grandes transformações nos dias de hoje. Se olharmos pela psicanálise, pensemos em Freud, que dizia que o amor está profundamente enraizado em nossa constituição psíquica.

Ele falava do investimento libidinal, da forma como escolhemos nossos objetos de amor a partir da nossa história, de nossas primeiras experiências afetivas. Freud também diferenciou o amor narcísico, voltado para o próprio eu, e o amor objetal, voltado para o outro. No fundo, todo amor carrega traços dessas duas dimensões. Amamos no outro aquilo que se parece conosco ou aquilo que gostaríamos de ser.

Já Lacan, por sua vez, trouxe a célebre frase: “Amar é dar o que não se tem a alguém que não é.” Essa definição revela que o amor é marcado pela falta, pelo reconhecimento da incompletude: nunca vamos nos completar pelo amor. Amamos para tentar nos completar, mas, na relação com o outro, apenas algo da nossa falta se reinscreve.

Portanto, não existe amor que complete, não existe amor que nos leve a uma plenitude. O amor, na modernidade, vem se transformando continuamente. Hoje, os relacionamentos passam por grandes mudanças. Podemos pontuar algumas delas:

1. O declínio do patriarcado.Antes, os relacionamentos eram estruturados em papéis rígidos: o homem provedor, a mulher cuidadora. Hoje, esses papéis são contestados e transformados a todo momento — e às vezes geram confusão.

2. A busca pela autonomia.A vida moderna valoriza a independência, a realização pessoal e profissional. Isso gera novas tensões: como conciliar o desejo de estar com o outro sem abrir mão da individualidade? Essa é uma grande questão que aparece nos consultórios.

3. A fluidez dos vínculos.Zygmunt Bauman chamou isso de “amor líquido”. Os laços contemporâneos são marcados pela rapidez com que se formam e se desfazem. Aplicativos de encontros, o “match” e o “descarte” são símbolos dessa fluidez. 4. A medicalização e o consumo do amor.Muitas vezes, o amor hoje é tratado como mais um objeto de consumo: algo a ser adquirido, avaliado e descartado. Isso gera frustração, já que o amor não se encaixa nos moldes do mercado.

O relacionamento contemporâneo é menos uma instituição fixa e mais um espaço de negociação constante. Diferente do modelo tradicional, em que regras externas ditavam como amar ou permanecer junto, hoje os casais precisam criar suas próprias regras. Cada casal tem o seu “livrinho”. Isso significa conversar sobre exclusividade ou abertura, redefinir papéis na rotina, negociar expectativas sobre futuro, filhos, carreira.

Esse excesso de liberdade pode ser vivido como um ganho, mas também como um peso. Muitos se sentem perdidos diante da falta de referências fixas. Ainda assim, a psicanálise nos mostra que amar continua sendo um encontro de faltas, desejos, idealizações e frustrações.

A diferença é que hoje esse encontro acontece em um cenário mais complexo, no qual cada sujeito é convidado a inventar o seu próprio modo de amar. Amar, na contemporaneidade, talvez seja mais difícil do que nunca. Temos mais liberdade, mas também mais inseguranças. O excesso de opções gera angústia e a fragilidade dos vínculos pode nos fazer sentir desamparados.

Ainda assim, a psicanálise lembra que o amor é um dos grandes motores da vida psíquica. Ele não se reduz a uma fórmula ou a um manual. Amar é sempre singular. Cada um tem sua forma de amar. É sempre uma invenção entre dois sujeitos.

E talvez o grande desafio dos dias de hoje seja esse: assumir a responsabilidade de criar um vínculo que não vem pronto, mas que se constrói a cada encontro, na escuta e no desejo compartilhado.

Bom, esse foi o tema do nosso episódio de hoje: o amor na modernidade, suas transformações e o que significa se relacionar hoje. Espero que essa reflexão ajude você a pensar sobre suas próprias experiências e a olhar com mais profundidade para o amor na vida contemporânea — e, sobretudo, a criar sua própria forma de amar.

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