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Adolescência na atualidade - Psicanálise e crescer

  • Foto do escritor: Olivan Liger
    Olivan Liger
  • 18 de set. de 2025
  • 4 min de leitura


Sejam bem-vindos e bem-vindas ao nosso canal Psicanálise – Pensar no Cotidiano. Eu sou Olivan Liger, psicanalista há 25 anos, e nós vamos, a cada episódio, falar de um tema da atualidade, do dia a dia, sempre na perspectiva da psicanálise. Escolhemos, para este primeiro episódio, falar do adolescente — o adolescente da atualidade, que vive entre redes, silêncios e sonhos.

A adolescência sempre foi um período muito turbulento. Já sabemos disso há muito tempo: um período de mudanças, de estranheza com o próprio corpo. A adolescência é também um tempo de muitas contradições e descobertas.


Mas, na atualidade, a adolescência ganhou contornos inéditos. Estamos falando de jovens que nasceram em um mundo conectado, digitalizado, globalizado e, ao mesmo tempo, um mundo totalmente instável. Por isso, ao longo deste episódio, nós vamos conversar sobre quem é o adolescente de hoje, quais as razões de suas atitudes e o que podemos esperar dessa geração para o futuro.


Serão alguns minutos para reflexões profundas sobre esse tema. Bom, quem é o adolescente de hoje? O adolescente atual é um ser em transição permanente. Parece que ele nunca encontra um lugar para se fixar. Está sempre se movimentando de um lado para o outro, em constante mudança, em transição de pensamentos e atitudes. Ele não apenas vive a transformação biológica do corpo e a psicológica da subjetividade, mas também a transição de um mundo inteiro que não para de mudar e que a cada dia se mostra diferente. Se olharmos algumas décadas atrás, o adolescente tinha como principal espaço de socialização a escola, o bairro, a praça, a igreja, a turma de amigos no mundo físico.


Hoje, vivemos com um adolescente híbrido: metade presencial, metade virtual. Pense comigo: quando um jovem de 15 anos fecha a porta do quarto e liga o celular, ele não está sozinho, ele está em rede. Pode estar conversando com 10 pessoas ao mesmo tempo, jogando com outras do outro lado do planeta, participando de um fórum, criando um vídeo que será visto por milhares de pessoas e colocado em alguma rede como Instagram ou TikTok.


Isso dá uma sensação de presença constante. Criar, estar em rede, estar nessa conexão dá a sensação de companhia permanente, mas ao mesmo tempo pode gerar solidão. O paradoxo é esse: nunca tivemos adolescentes tão conectados e tão solitários ao mesmo tempo.


Outro aspecto que chama muita atenção no consultório é que essa geração é mais sensível e consciente, embora muitas vezes não pareça. Não é raro ver adolescentes falando de saúde mental, por exemplo, ou de inclusão, relatando casos que acontecem na escola, opinando sobre temas sociais.


Estão engajados em causas sociais; alguns pacientes meus participam de ONGs que ajudam pessoas em situação de vulnerabilidade. São jovens que não aceitam simplesmente repetir os padrões do passado. Mas também é uma geração marcada por pressões invisíveis: a necessidade de se mostrar, de estar presente nas redes, de performar uma felicidade que quase nunca é real.


A imagem hoje ocupa um lugar central. Isso mexe com a autoestima e com a construção do eu. Podemos dizer que o adolescente de hoje é um explorador da própria identidade, sempre em mudança. Mas o faz diante de um espelho coletivo: a internet. Além disso, os adolescentes atuais convivem diariamente com incertezas globais: mudanças climáticas, crises políticas, desigualdades, guerras transmitidas em tempo real. Isso os torna mais conscientes, mas também mais ansiosos e inseguros em relação ao futuro.


Eles cresceram no imediatismo. Tudo está a um clique. Isso os torna criativos, capazes de aprender sozinhos e de se adaptar rapidamente. Mas também impacientes, intolerantes à espera.


Outra questão é a crise do patriarcado e da autoridade tradicional. Antes, pais e professores tinham uma voz quase indiscutível. Hoje, o adolescente questiona. Não aceita mais respostas do tipo “é assim porque sim”; ele quer lógica, coerência. Isso gera conflitos, mas também sinaliza autonomia e senso crítico.


Há uma busca por autenticidade. Enquanto gerações passadas buscavam estabilidade e reconhecimento, a atual busca propósito. Quer ser quem realmente é, mesmo que isso cause rupturas. Por isso vemos tantos jovens explorando identidade de gênero, sexualidade, estilo e lugar no mundo.


Mas essa exposição constante nas redes também traz fragilidade. A comparação permanente mina a autoestima. O medo do julgamento trava. Muitos adolescentes carregam a sensação de não serem bons o bastante.


Uma das consequências é que eles vivem muito mais o presente, buscando intensidade — às vezes em experiências imediatas, como as drogas —, o que pode ser interpretado pelos adultos como rebeldia ou instabilidade. Mas, no fundo, é uma luta por sentido, uma tentativa de dar significado ao hoje.


E o que esperar dessa geração? É uma geração cheia de contradições: ansiosa, mas criativa; frágil, mas engajada; dispersa, mas profundamente conectada ao que lhe importa. É também mais crítica e questionadora. Não aceita verdades prontas: pesquisa, compara, duvida. É uma geração mais plural, que respeita diferenças de gênero, raça e identidade com mais naturalidade, o que tende a gerar uma sociedade mais inclusiva.


No entanto, também enfrentará dificuldades em lidar com frustrações, ansiedade e planejamento a longo prazo, já que vive num mundo de incertezas. Por isso, nossa responsabilidade como adultos é acompanhar, orientar e escutar, em vez de apenas criticar. O adolescente atual não precisa de sermões prontos, mas de diálogo, espaço para falar e de adultos que estejam dispostos a aprender com eles.


No fundo, essa geração traz algo muito valioso: a coragem de não se conformar. O adolescente da atualidade não é um enigma insolúvel. Ele é um espelho da sociedade que construímos e das transformações do nosso tempo. É inquieto, ansioso, contraditório, mas também criativo, engajado, cheio de sonhos e de uma força que, se bem apoiada, pode mudar o rumo da história.


O que esperar deles? Esperar é pouco. Precisamos caminhar juntos, acolher suas dores, respeitar sua busca de sentido e nos permitir também mudar. É nesse ponto que o adolescente pode ensinar muito a nós adultos.


Eu sou Olivan e esse foi o episódio de hoje do nosso podcast. Se você gostou, compartilhe, siga nosso canal e continue refletindo conosco. Estaremos lançando um podcast por semana, eventualmente dois. Em alguns deles, convidaremos alguém para entrevista, mas por enquanto estarei aqui com vocês semanalmente.

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