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Medicalização da vida - Psicanálise e saúde

  • Foto do escritor: Olivan Liger
    Olivan Liger
  • 19 de set. de 2025
  • 5 min de leitura


Psicanálise: Pensar a Atualidade e o Dia a Dia. Sejam todos muito bem-vindos e bem-vindas ao episódio de hoje. Vamos falar sobre um tema que atravessa a vida contemporânea de forma cada vez mais intensa: a medicalização generalizada. Ou seja, para tudo hoje se tem um remédio, para tudo hoje se tem uma pílula mágica que resolve.

E, junto disso, vamos pensar em que momento a medicação é necessária e quando ela deve ser acompanhada de um processo psicanalítico. Vivemos em uma sociedade onde, cada vez mais, as respostas às nossas dores, angústias e sofrimentos são buscadas em comprimidos. É uma tristeza mais prolongada que logo vira depressão.É uma criança agitada que já recebe de cara o rótulo de TDAH sem uma escuta mais profunda, sem uma investigação mais detalhada dessa agitação. É uma insônia passageira que rapidamente se torna indicação para tomar um clonazepam da vida, um rivotril, um ansiolítico. Esse movimento de medicalização da vida não significa apenas a prescrição de remédios.

Ele revela algo mais profundo. Se olharmos com cuidado, veremos uma sociedade que não tolera o mal-estar, que não suporta a dor psíquica e que busca soluções rápidas, imediatas, químicas para problemas que muitas vezes têm raízes existenciais, afetivas, inconscientes. Em O Mal-Estar na Civilização (1930), Freud dizia que sempre haveria um resto de sofrimento impossível de eliminar.A promessa da felicidade plena era, para Freud, uma ilusão. Mas, na sociedade atual, essa promessa é vendida como se fosse possível. É a indústria farmacêutica, junto da cultura de desempenho e produtividade, que lucra com essa ilusão.

Quando a medicação é necessária, afinal? É importante dizer que a crítica à medicalização não é uma crítica ao uso de medicamentos em si. Há uma diferença aí, porque existem quadros clínicos em que a medicação é indispensável e, muitas vezes, salva vidas. Vamos pensar, por exemplo, numa depressão grave, num transtorno bipolar, na própria psicose ou nas crises agudas de ansiedade e pânico, tão comuns hoje. O que mais chega ao consultório são pessoas reclamando dessa ansiedade que leva a picos de pânico.

Nesses momentos, o corpo e o psiquismo estão tomados por uma intensidade que impede o sujeito de elaborar qualquer coisa em uma análise. Uma pessoa em depressão grave está com o imaginário embotado. Como trabalhar, como tirar essa pessoa da depressão sem a ajuda da medicação? A medicação pode funcionar como suporte: ela diminui a intensidade do sofrimento, regula o corpo, reduz sintomas incapacitantes e permite que o sujeito possa, de fato, falar.

Aqui já podemos fazer a primeira conexão: a medicação pode ser um ponto de apoio, mas nunca deveria substituir o espaço da fala, da elaboração psíquica.

O grande risco que vemos hoje é transformar cada experiência humana em um transtorno. O luto, que é parte inevitável da vida, vira depressão. A timidez, que pode ser um traço subjetivo do sujeito, é tratada como fobia social. A inquietação da infância é vista como hiperatividade pura. Quando fazemos isso, o que perdemos? Perdemos algo muito precioso: a singularidade. Perdemos a chance de entender o sintoma como mensagem.

Para a psicanálise, o sintoma não é apenas algo a ser eliminado. Ele é um modo de dizer do inconsciente, um pedido de escuta. Se simplesmente silenciamos o sintoma com a medicação, corremos o risco de calar também a subjetividade que nele se expressa ou de criar outro sintoma.

Quando pensamos na medicalização hoje, não podemos ignorar o cenário cultural em que ela se inscreve. Vivemos numa época marcada por excesso de diagnósticos, pela patologização de comportamentos comuns e pela promessa de que todo mal-estar tem uma explicação química e uma solução em forma de cápsula.

A pergunta que precisamos levantar o tempo todo é: até que ponto a nossa própria cultura está produzindo sintomas que depois ela mesma nomeia como doença? Essa é uma questão fundamental. Em uma sociedade que exige rendimento constante, felicidade imediata, performance ininterrupta, não surpreende que a ansiedade seja algo epidêmico. Em uma cultura que supervaloriza a imagem, o corpo e a performance estética, basta ver a proliferação de redes de academias no Brasil. É quase natural que distúrbios como vigorexia, anorexia ou compulsão alimentar se multipliquem.

Em um mundo de vínculos líquidos, relações descartáveis e isolamento social, não surpreende que a depressão seja chamada de “mal do século”. Maria Rita Kehl escreveu um livro muito interessante chamado O Mundo e o Cão, em que explica esse processo depressivo de forma clara. Ela o coloca como um traço social: a cultura cria o cenário, alimenta o sintoma e, em seguida, oferece o remédio. Quem lucra com isso? A indústria farmacêutica, o capitalismo.

Qual é o papel da medicação nesse cenário? O medicamento aparece como uma forma de ajustar o sujeito ao ritmo da cultura. Quando se medicaliza em excesso, estamos tentando moldar o sujeito à lógica cultural vigente: está ansioso? Um remédio para dormir e continuar produzindo. Está triste? Usa um antidepressivo, volta a sorrir, tira fotos para o Instagram. Está cansado? Um estimulante resolve. Não se trata apenas de tratar um sofrimento, mas de garantir que o sujeito permaneça funcional para o sistema.

E onde entra a psicanálise? É aqui que ela se torna absolutamente necessária. Porque, se a cultura fabrica doenças e oferece remédios como soluções rápidas, a psicanálise oferece outra via: a via da escuta singular. Enquanto a medicação atua para reduzir o sintoma, a psicanálise pergunta o que esse sintoma está dizendo, qual mensagem inconsciente ele traz, o que a cultura impõe a você que não é suportável.

Assim, a psicanálise não se opõe ao medicamento. O que ela critica é a lógica do silenciamento do sujeito, de ajustá-lo ao ritmo da cultura. O analista não está ali para normalizar, mas para abrir espaço para que o sujeito possa falar de si, da sua dor, da sua falta, do seu desejo. Em muitos casos, o sujeito precisa sim da medicação para respirar e falar. Mas se ficar apenas no remédio, corre o risco de se tornar consumidor perpétuo de soluções químicas, sem nunca elaborar o que o faz sofrer.

É na análise que ele poderá sair da posição de objeto medicalizado para se reconhecer como sujeito desejante, com responsabilidade sobre sua história. A cultura cria a doença mental para vender a cura química; a psicanálise propõe outro caminho: não eliminar o sintoma a qualquer custo, mas escutá-lo como via de acesso à verdade subjetiva.

Assim, a psicanálise não promete adequação, mas algo mais precioso: singularidade. Não promete felicidade plena, mas um modo de viver com a própria falta, com a incompletude, com a angústia do dia a dia. E isso nenhuma medicação pode oferecer.

Precisamos estar atentos para não cair na lógica neoliberal da eficiência, da produtividade, do sujeito que deve estar sempre ativo, feliz, rendendo. Essa lógica exige sujeitos medicados para não parar, não sofrer, não se deprimir. Mas o humano é feito também de falta, fragilidade, dor — e aceitar isso faz parte da construção de uma vida mais autêntica.

Então, para encerrar, digo o seguinte: a medicalização tem o seu lugar, mas não deve ser o único caminho. Quando necessária, deve estar acompanhada de um processo de fala, de análise, de elaboração subjetiva. O medicamento pode calar o sintoma, mas só a palavra pode transformá-lo.

Entenda isso: a importância da escuta e da fala. Se eu não falo, se sou calado pela medicação, outro sintoma virá. E cada vez mais me adequo a um personagem que a cultura quer que eu seja.

Esse foi o episódio de hoje. Se você gostou, compartilhe com quem pode se interessar por esse tema. E lembre-se: o sofrimento merece escuta, não apenas silenciamento. Até o próximo episódio.

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