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A VISÃO DE HAROLD FREDERICK SEARLES SOBRE O TRATAMENTODO PACIENTE BORDERLINE

  • Foto do escritor: Olivan Liger
    Olivan Liger
  • 27 de jan.
  • 18 min de leitura


Resumo (Português) Este artigo tem como objetivo apresentar e discutir a concepção de Harold Frederick Searles acerca do tratamento psicanalítico de pacientes borderline. Partindo do interesse clínico de Searles por pacientes graves, especialmente aqueles situados entre a neurose e a psicose, a pesquisa aborda sua trajetória biográfica e o contexto teórico no qual sua obra se insere. No desenvolvimento, são exploradas as concepções de etiologia do funcionamento borderline segundo Searles, bem como os fundamentos de sua técnica, organizada em cinco momentos fundamentais do processo analítico: (1) fora do contato, (2) simbiose ambivalente, (3) simbiose pré-ambivalente, (4) resolução da simbiose e (5) individuação. A análise enfatiza o papel da contratransferência, da participação emocional do analista e da vivência simbiótica como instrumentos centrais do tratamento. Por fim, são apresentadas considerações finais sobre a relevância contemporânea do pensamento de Searles para a clínica dos estados-limite.


Resumen (Español) Este artículo tiene como objetivo presentar y discutir la concepción de Harold Frederick Searles sobre el tratamiento psicoanalítico de pacientes borderline. A partir del interés clínico de Searles por pacientes graves, especialmente aquellos situados entre la neurosis y la psicosis, el trabajo aborda su trayectoria biográfica y el contexto teórico en el que se inscribe su obra. En el desarrollo, se exploran las concepciones etiológicas del funcionamiento borderline según Searles, así como los fundamentos de su técnica, organizada en cinco momentos fundamentales del proceso analítico: (1) fuera de contacto, (2) simbiosis ambivalente, (3) simbiosis preambivalente, (4) resolución de la simbiosis y (5) individuación. El análisis destaca el papel de la contratransferencia, de la implicación emocional del analista y de la vivencia simbiótica como instrumentos centrales del tratamiento. Finalmente, se presentan consideraciones finales sobre la relevancia contemporánea del pensamiento de Searles para la clínica de los estados límite. Palabras clave: Searles; paciente borderline; estados límite; simbiosis; técnica psicoanalítica.


Abstract (English) This article aims to present and discuss Harold Frederick Searles’ conception of the psychoanalytic treatment of borderline patients. Starting from Searles’ clinical interest in severely disturbed patients, especially those located between neurosis and psychosis, the paper addresses his biographical background and the theoretical context of his work. In the main section, Searles’ views on the etiology of borderline functioning are examined, along with the foundations of his technique, structured around five fundamental phases of the analytic process: (1) being out of contact, (2) ambivalent symbiosis, (3) pre-ambivalent symbiosis, (4) resolution of symbiosis, and (5) individuation. The analysis highlights the central role of countertransference, the analyst’s emotional involvement, and the symbiotic experience as essential therapeutic tools. The final considerations address the contemporary relevance of Searles’ thought for the clinical treatment of borderline states. Keywords: Searles; borderline patient; borderline states; symbiosis; psychoanalytic technique




Introdução Harold Frederick Searles destacou-se na história da psicanálise por seu interesse persistente e profundamente implicado no tratamento de pacientes considerados graves, particularmente aqueles que não se enquadravam claramente nas categorias clássicas de neurose ou psicose. Foi no contato clínico com pacientes esquizofrênicos e estados limite, sobretudo durante sua atuação no Chestnut Lodge Hospital, que Searles passou a se deparar com formas de sofrimento psíquico marcadas por intensas falhas na constituição do self, dificuldades no contato com a realidade e relações objetais profundamente simbióticas


O paciente borderline, para Searles, não representava apenas um desafio técnico, mas uma interrogação radical à posição tradicional do analista. Esses pacientes convocavam o analista a participar emocionalmente do campo analítico, expondo-o a vivências primitivas, confusas e, muitas vezes, angustiantes. Assim, o interesse de Searles por esse tipo de paciente nasce menos de uma formulação diagnóstica abstrata e mais de uma experiência clínica viva, na qual o analista se vê afetado, transformado e implicado no processo terapêutico.


Breve percurso biográfico de Harold Frederick Searles Harold Frederick Searles (1918-2015) foi um psicanalista norte-americano associado à tradição das relações de objeto e amplamente reconhecido por suas contribuições ao tratamento psicanalítico de pacientes psicóticos e borderline. Formado em medicina, Searles iniciou sua carreira psiquiátrica em instituições que atendiam pacientes gravemente perturbados, o que marcou decisivamente sua orientação clínica.


Sua longa atuação no Chestnut Lodge Hospital, instituição conhecida por abrigar importantes analistas interessados no tratamento de psicoses, permitiu-lhe desenvolver uma escuta clínica singular. Influenciado por Freud, Melanie Klein, Fairbairn e Winnicott, Searles construiu uma abordagem própria, na qual a contratransferência deixa de ser um obstáculo a ser controlado e passa a ser considerada um instrumento privilegiado de compreensão do paciente.


Entre suas obras mais conhecidas destacam-se Collected Papers on Schizophrenia and Related Subjects e The Countertransference and Related Subjects, nas quais Searles articula teoria e clínica a partir de descrições detalhadas de processos analíticos longos e intensos.




Introdução


Harold Frederick Searles destacou-se na história da psicanálise por seu interesse persistente e profundamente implicado no tratamento de pacientes considerados graves, particularmente aqueles que não se enquadravam claramente nas categorias clássicas de neurose ou psicose. Foi no contato clínico com pacientes esquizofrênicos e estados limite, sobretudo durante sua atuação no Chestnut Lodge Hospital, que Searles passou a se deparar com formas de sofrimento psíquico marcadas por intensas falhas na constituição do self, dificuldades no contato com a realidade e relações objetais profundamente simbióticas.


O paciente borderline, para Searles, não representava apenas um desafio técnico, mas uma interrogação radical à posição tradicional do analista. Esses pacientes convocavam o analista a participar emocionalmente do campo analítico, expondo-o a vivências primitivas, confusas e, muitas vezes, angustiantes. Assim, o interesse de Searles por esse tipo de paciente nasce menos de uma formulação diagnóstica abstrata e mais de uma experiência clínica viva, na qual o analista se vê afetado, transformado e implicado no processo terapêutico.



Breve percurso biográfico de Harold Frederick Searles


Harold Frederick Searles (1918-2015) foi um psicanalista norte-americano associado à tradição das relações de objeto e amplamente reconhecido por suas contribuições ao tratamento psicanalítico de pacientes psicóticos e borderline. Formado em medicina, Searles iniciou sua carreira psiquiátrica em instituições que atendiam pacientes gravemente perturbados, o que marcou decisivamente sua orientação clínica.


Sua longa atuação no Chestnut Lodge Hospital, instituição conhecida por abrigar importantes analistas interessados no tratamento de psicoses, permitiu-lhe desenvolver uma escuta clínica singular. Influenciado por Freud, Melanie Klein, Fairbairn e Winnicott, Searles construiu uma abordagem própria, na qual a contratransferência deixa de ser um obstáculo a ser controlado e passa a ser considerada um instrumento privilegiado de compreensão do paciente.


Entre suas obras mais conhecidas destacam-se Collected Papers on Schizophrenia and Related Subjects e The Countertransference and Related Subjects, nas quais Searles articula teoria e clínica a partir de descrições detalhadas de processos analíticos longos e intensos.




A técnica psicanalítica de Harold F. Searles: fundamentos gerais A técnica desenvolvida por Harold F. Searles para o tratamento de pacientes borderline 05 apoia-se na convicção de que esses sujeitos operam em níveis extremamente primitivos de organização psíquica, nos quais a diferenciação entre self e objeto encontra-se fragilizada. Diferentemente da técnica clássica voltada às neuroses, o enquadre analítico com pacientes borderline exige do analista uma participação emocional profunda, contínua e cuidadosamente refletida.


Para Searles, a neutralidade técnica estrita pode se converter em retraumatização, uma vez que reedita experiências precoces de desamparo e ausência de responsividade ambiental. Assim, sua técnica funda-se em três eixos centrais: (1) tolerância do analista às experiências simbióticas; (2) uso sistemático da contratransferência como instrumento clínico; e (3) respeito rigoroso ao tempo psíquico do paciente, especialmente no que se refere aos processos de separação e individuação.




Etiologia do paciente borderline segundo Searles


No entendimento de Searles, a etiologia do funcionamento borderline está associada a falhas precoces nas relações objetais primárias, em especial na constituição de uma experiência simbiótica suficientemente boa que pudesse, posteriormente, ser elaborada e superada. O paciente borderline permanece fixado em níveis arcaicos do desenvolvimento emocional, nos quais a separação do objeto é vivida como ameaça de aniquilação psíquica.


Essas falhas produzem um self pouco integrado, permeável a invasões do objeto e marcado por angústias primitivas. A oscilação característica entre fusão e rejeição, dependência extrema e ataques destrutivos ao vínculo, reflete tentativas desesperadas de manter a continuidade do self frente ao terror da separação. Na clínica, Searles destaca as fases de uma análise com esse tipo de paciente




1- Fora do contato: o início do processo analítico A fase designada por Harold Frederick Searles como “fora do contato” corresponde a um nível extremamente primitivo de funcionamento psíquico, no qual o paciente se encontra incapaz de estabelecer um vínculo intersubjetivo minimamente organizado com o analista. Não se trata de um retraimento defensivo ou de uma resistência consciente ao processo analítico, mas de uma impossibilidade estrutural de compartilhar uma realidade psíquica comum. Nesse estágio, o paciente não dispõe de recursos simbólicos suficientes para reconhecer o outro como sujeito separado, o que compromete a constituição de um campo relacional propriamente dito.


Do ponto de vista metapsicológico, o estado de “fora do contato” situa-se aquém das organizações neuróticas e mesmo das modalidades psicóticas mais estruturadas. O funcionamento psíquico é marcado por falhas profundas na integração do self e por uma precariedade dos limites entre eu e não-eu. A comunicação ocorre predominantemente por vias não simbólicas, por meio de atmosferas emocionais, estados afetivos difusos e experiências sensoriais que invadem o setting analítico. A ausência aparente de material associativo não deve, portanto, ser interpretada como vazio psíquico, mas como expressão de um modo arcaico de existência mental.


Nesse contexto, a contratransferência assume um papel central na compreensão clínica. O analista é frequentemente tomado por sentimentos de confusão, inutilidade, tédio intenso, desesperança ou mesmo por uma sensação de inexistência subjetiva. Searles destaca que essas vivências não correspondem a falhas pessoais ou técnicas do analista, mas constituem comunicações diretas do mundo interno do paciente, que não pode ainda ser simbolizado nem representado verbalmente. O paciente, incapaz de pensar sua própria experiência, “coloca” no analista estados mentais que ele próprio não consegue conter.


A especificidade da técnica, nesse momento inicial, reside na capacidade do analista de tolerar tais vivências sem recorrer a defesas prematuras, como interpretações intelectuais, intervenções excessivamente estruturantes ou retraimento emocional. Qualquer tentativa de forçar a simbolização ou de instaurar rapidamente um diálogo interpretativo tende a ser vivenciada como intrusão ou abandono, reforçando a ruptura do contato. Para Searles, a presença contínua, estável e emocionalmente disponível do analista constitui, nesse estágio, o primeiro e mais fundamental gesto terapêutico.


Essa presença não se confunde com passividade. Trata-se de uma posição clínica ativa, que implica a disposição do analista em sustentar o não-sentido, a desorganização e o vazio aparente sem buscar precipitadamente restaurar sua própria coesão narcísica. Ao permanecer presente e pensante, mesmo quando se sente subjetivamente inexistente, o analista oferece ao paciente uma primeira experiência de contato que não exige desempenho psíquico nem adaptação imediata


Progressivamente, essa sustentação permite que o paciente comece a experimentar a existência de um outro que não se dissolve nem se retira diante do vazio e da desorganização. O “fora do contato”, assim, não representa um obstáculo inicial ao tratamento, mas o ponto de partida necessário para a construção gradual de uma experiência intersubjetiva. É a partir dessa base que se torna possível, posteriormente, a emergência das formas simbióticas de relação e, em etapas mais avançadas, a diferenciação do self e do objeto.




2 - Simbiose ambivalente: amor e ódio no vínculo analítico


A simbiose ambivalente, conforme formulada por Harold Frederick Searles, representa um momento crucial do tratamento do paciente borderline, no qual se estabelece uma forma de relação objetal marcada pela coexistência intensa e não integrada de impulsos amorosos e destrutivos dirigidos ao analista. Diferentemente da simbiose pré ambivalente, na qual o objeto é vivenciado como condição indiferenciada de existência, a simbiose ambivalente implica um primeiro reconhecimento do analista como objeto significativo, ainda que esse reconhecimento seja permeado por conflitos primitivos e por uma fragilidade estrutural da diferenciação self–objeto.


Nesse estágio, o analista é simultaneamente vivido como fonte indispensável de sustentação psíquica e como ameaça potencial à integridade do self. A dependência extrema convive com impulsos agressivos intensos, frequentemente expressos por meio de ataques ao enquadre, rupturas da aliança terapêutica, exigências de disponibilidade absoluta, bem como por movimentos abruptos de idealização e desvalorização. Tais manifestações não devem ser compreendidas como resistência no sentido clássico, mas como tentativas desesperadas de regular a proximidade do objeto, numa dinâmica oscilante entre o medo da fusão e o terror da separação.


Do ponto de vista metapsicológico, a simbiose ambivalente situa-se em um nível de funcionamento próximo à posição esquizoparanoide descrita por Melanie Klein, embora, em Searles, a ênfase recaia menos sobre fantasias inconscientes isoladas e mais sobre a experiência relacional viva no campo analítico. O paciente começa a perceber o analista como outro, mas ainda não dispõe de recursos psíquicos suficientes para integrar representações contraditórias do objeto. Como resultado, amor e ódio são vividos de forma clivada, alternante e frequentemente extrema.


A especificidade técnica proposta por Searles para o manejo dessa fase reside na necessidade de que a ambivalência seja primeiramente vivida e sustentada no campo analítico antes de qualquer tentativa interpretativa sistemática. O analista é convocado a tolerar projeções destrutivas, acusações, ataques à sua competência e ao setting, sem retaliar, sem se defender excessivamente e sem se retirar emocionalmente. Essa posição clínica não implica passividade, mas uma presença firme e contínua, capaz de sobreviver à destrutividade do paciente sem retaliá-la nem colapsar diante dela.


A contratransferência, nesse momento, constitui um instrumento clínico central. O analista pode experimentar intensos sentimentos de raiva, humilhação, impotência ou desejo de afastamento, que refletem a vivência interna do paciente diante de um objeto percebido como simultaneamente necessário e persecutório. Para Searles, a elaboração reflexiva dessas vivências contratransferenciais permite ao analista manter-se disponível para a relação, evitando atuações que reforçariam a clivagem ou reencenariam experiências precoces de rejeição e abandono.


Essa postura técnica aproxima-se de uma ética clínica baseada na sobrevivência do objeto, conceito que, embora mais sistematizado posteriormente por Winnicott, encontra em Searles uma formulação clínica robusta. A capacidade do analista de permanecer presente e pensante frente à agressividade do paciente constitui uma experiência emocional corretiva fundamental, pois demonstra, de forma vivida e não meramente interpretada, que o objeto pode ser odiado sem ser destruído. Essa experiência prepara o terreno para a integração progressiva da ambivalência e para a transição a formas de relação menos clivadas e menos fusionais.


Assim, a simbiose ambivalente não deve ser concebida como um impasse técnico, mas como uma etapa necessária do processo analítico com pacientes borderline. Sua travessia bem-sucedida depende menos da precisão interpretativa do analista e mais de sua capacidade de sustentar emocionalmente a tensão entre amor e ódio, permitindo que o paciente, gradualmente, desenvolva recursos psíquicos para reconhecer e integrar aspectos contraditórios de si mesmo e do outro.




3 Simbiose pré-ambivalente: níveis arcaicos da experiência A simbiose pré-ambivalente, tal como concebida por Harold Frederick Searles, corresponde a um nível extremamente primitivo de organização psíquica, anterior à constituição da ambivalência afetiva e à diferenciação estável entre self e objeto. Trata-se de uma modalidade de relação em que a existência psíquica do paciente depende quase integralmente da presença do outro, vivida não como objeto externo, mas como condição ontológica de continuidade do ser. Nesse estágio, a distinção entre amor e ódio ainda não se encontra estabelecida, e os afetos apresentam-se de forma indiferenciada, maciça e frequentemente avassaladora.


Do ponto de vista metapsicológico, a simbiose pré-ambivalente situa-se aquém das posições esquizoparanoide e depressiva descritas por Melanie Klein, aproximando-se de estados pré-representacionais nos quais o psiquismo opera predominantemente por meio de experiências sensoriais e corporais, mais do que por representações simbólicas. O paciente borderline, ao regressar a esse nível no setting analítico, não se dirige ao analista como objeto diferenciado, mas o utiliza como extensão do próprio self, numa tentativa desesperada de evitar a fragmentação psíquica.


Nesse contexto, a presença do analista é vivenciada como absolutamente necessária à sobrevivência emocional. Qualquer sinal de ausência, falha ou limite pode ser experimentado como ameaça de aniquilação, desencadeando intensas reações de angústia primitiva. Searles enfatiza que tais vivências não devem ser compreendidas como resistências ou manipulações, mas como expressões legítimas de um funcionamento psíquico profundamente arcaico, no qual a dependência extrema constitui a única forma possível de organização do self


. A especificidade técnica proposta por Searles para o manejo dessa fase reside na aceitação, por parte do analista, de ser utilizado simbolicamente pelo paciente. Essa utilização não implica uma fusão real nem a abdicação da função analítica, mas uma disponibilidade emocional suficientemente ampla para acolher projeções massivas, identificações projetivas e estados afetivos não simbolizados. O analista torna-se, temporariamente, o suporte psíquico a partir do qual o paciente pode começar a existir de forma minimamente integrada.


Entretanto, essa posição clínica impõe exigências significativas ao analista. A contratransferência, na simbiose pré-ambivalente, tende a assumir formas particularmente intensas, incluindo sensações de aprisionamento, medo de colapso mental, angústia sem nome e fantasias de aniquilação. Searles destaca que tais vivências não devem ser evitadas ou rigidamente controladas, mas reconhecidas como comunicações diretas do mundo interno do paciente. Ao mesmo tempo, é imprescindível que o analista preserve sua própria coesão psíquica, recorrendo à reflexão clínica, à supervisão e à análise pessoal para evitar atuações inconscientes.


O risco central dessa fase reside na possibilidade de o analista, tomado pela intensidade da experiência simbiótica, responder por meio de retraimento defensivo ou, inversamente, de envolvimento excessivo. Ambas as posições comprometem o processo analítico: o retraimento reatualiza experiências precoces de abandono, enquanto o envolvimento não refletido reforça a fusão patológica. A posição proposta por Searles exige, portanto, uma sustentação paradoxal, na qual o analista permanece emocionalmente implicado sem perder a capacidade de pensar sobre o que está sendo vivido.


A elaboração progressiva dessa experiência simbiótica pré-ambivalente permite, gradualmente, a emergência da ambivalência afetiva. À medida que o paciente começa a tolerar a existência do analista como objeto minimamente separado, torna-se possível diferenciar afetos, reconhecer impulsos destrutivos e iniciar a construção de representações mais estáveis do self e do objeto. Assim, a simbiose pré-ambivalente, longe de constituir um impasse técnico, representa uma etapa necessária do tratamento, cuja travessia prepara o terreno para a simbiose ambivalente e, posteriormente, para a resolução da dependência fusional.




4. Resolução da simbiose: separação e luto


No modelo clínico de Harold Frederick Searles, a resolução da simbiose constitui um dos momentos mais críticos e estruturalmente decisivos do tratamento do paciente borderline. Longe de representar uma passagem técnica simples ou linear, trata-se de um processo profundamente perturbador para ambos os participantes do campo analítico, pois implica a dissolução gradual de uma organização relacional que, embora patológica, desempenhou uma função vital de sustentação psíquica.


Searles enfatiza que a saída da simbiose não pode ser promovida por meio de interpretações diretas ou confrontações precoces da dependência do paciente. Qualquer tentativa de precipitar a separação tende a ser vivenciada como abandono traumático ou ataque à continuidade do self, reativando angústias de aniquilação características do funcionamento borderline. A resolução simbiótica ocorre, ao contrário, a partir da experiência repetida e cumulativa de separações que não resultam em colapso psíquico — separações essas vividas tanto no nível concreto (intervalos entre sessões, falhas inevitáveis do analista) quanto no nível simbólico (reconhecimento da alteridade do objeto)


Do ponto de vista metapsicológico, esse processo envolve a transformação da relação self–objeto de uma modalidade fusional para uma relação marcada pela diferenciação e pela representação. O paciente passa, progressivamente, a tolerar a existência de um objeto que não coincide integralmente com suas necessidades, desejos ou estados afetivos. Essa tolerância não se estabelece sem sofrimento: a resolução da simbiose é invariavelmente acompanhada por intensos afetos de luto, raiva e culpa, que emergem à medida que a fantasia de unidade absoluta com o objeto precisa ser abandonada.


O luto, nesse contexto, não se refere apenas à perda do objeto simbiótico, mas à perda de uma forma de existência psíquica. O paciente é confrontado com a realidade de que a fusão, embora protetiva contra angústias primitivas, implicava a renúncia à alteridade e à autonomia. A raiva frequentemente expressa nesse momento dirige-se tanto ao analista — vivido como aquele que “retira” a simbiose — quanto ao próprio self, por experimentar a separação como falha ou traição. A culpa, por sua vez, emerge da fantasia inconsciente de ter explorado ou danificado o objeto simbiótico durante a fase de dependência extrema.


Searles sublinha que a resolução da simbiose não é um processo exclusivamente do paciente. O analista, que participou intensamente da vivência simbiótica, também é afetado pela separação. A relação simbiótica estabelece um vínculo emocional profundo, no qual o analista ocupa uma posição central no mundo interno do paciente. A perda dessa centralidade pode suscitar vivências contratransferenciais de luto, vazio, desinvestimento ou até sentimentos depressivos. Para Searles, o reconhecimento e a elaboração dessas vivências são essenciais, pois a negação do luto do analista pode levar a atuações sutis que dificultam a separação efetiva.


O reconhecimento mútuo da alteridade inaugura, então, uma nova configuração do vínculo analítico. O analista deixa de ser vivido como objeto necessário à sobrevivência psíquica e passa a ser reconhecido como um outro separado, com limites próprios. Essa transformação possibilita a emergência de relações menos fusionais e mais simbólicas, nas quais o vínculo não se organiza mais em torno da urgência da fusão, mas da capacidade de sustentar a diferença.


Clinicamente, a resolução da simbiose se manifesta por uma maior tolerância à ausência, pela diminuição da exigência de disponibilidade absoluta do analista e pela capacidade crescente de o paciente refletir sobre a relação, em vez de apenas vivê-la de forma atuada. No entanto, Searles adverte que essa fase permanece vulnerável a regressões, especialmente em momentos de frustração ou perda, exigindo do analista uma escuta atenta e uma posição clínica estável.


Assim, a resolução da simbiose, em Searles, não representa o fim da dependência, mas sua transformação. A dependência deixa de ser fusional e ameaçadora para tornar-se uma relação internaizada, simbolizada e compatível com a diferenciação do self. É precisamente essa transformação que prepara o terreno para o processo subsequente de individuação.


Individuação: consolidação do self e transformação do vínculo analítico Na concepção de Harold Frederick Searles, a individuação constitui uma conquista clínica tardia e sempre relativa no tratamento de pacientes borderline. Diferentemente de modelos desenvolvimentistas que concebem a individuação como um estágio linear e definitivamente alcançado, Searles a compreende como um processo dinâmico, instável e continuamente ameaçado por regressões aos modos simbióticos de relação. A individuação não se estabelece por ruptura abrupta com a dependência primitiva, mas emerge gradualmente a partir da experiência reiterada de uma separação que não resulta em colapso psíquico.


Nesse estágio do tratamento, o paciente passa a reconhecer o analista como um objeto externo diferenciado, dotado de existência própria e não inteiramente subordinado às necessidades do self. Tal reconhecimento implica uma transformação profunda da relação transferencial: o analista deixa de ser vivido como prolongamento do eu ou como condição indispensável à continuidade da existência psíquica, passando a ocupar o lugar de um outro relativamente estável, porém separado. Essa passagem representa um marco estrutural importante, pois inaugura a possibilidade de relações objetais menos fusionais e menos persecutórias.


A consolidação do self, nesse contexto, refere-se à capacidade crescente do paciente de sustentar uma identidade relativamente coesa ao longo do tempo, mesmo na ausência física ou simbólica do analista. O paciente torna-se progressivamente capaz de tolerar a frustração, a ausência e a diferença sem vivenciá-las como ameaças de aniquilação. Do ponto de vista clínico, observa-se uma ampliação da capacidade de simbolização, uma redução dos acting-outs e uma maior possibilidade de reflexão sobre os próprios estados afetivos e conflitos internos.


Para Searles, essa conquista só se torna possível porque o analista, nas fases anteriores do tratamento, aceitou participar emocionalmente da experiência simbiótica do paciente, sobrevivendo aos ataques destrutivos, às idealizações maciças e às exigências de fusão. A individuação, portanto, não decorre de interpretações corretivas ou de uma postura técnica distanciada, mas da internalização, pelo paciente, de um objeto que pôde ser utilizado sem ser destruído. A experiência de um analista que permanece presente, pensante e emocionalmente disponível, mesmo quando intensamente afetado, constitui o fundamento da autonomia psíquica emergente.


A transformação do vínculo analítico, nesse estágio, é acompanhada por intensos afetos de luto. O paciente é confrontado com a perda da fantasia de fusão absoluta, ao mesmo tempo em que o analista vivencia a diminuição de sua centralidade no mundo psíquico do paciente. Searles enfatiza que tais vivências contratransferenciais — frequentemente marcadas por sentimentos de vazio, perda ou desinvestimento — não indicam fracasso técnico, mas sinalizam a reorganização do campo analítico em direção a uma relação menos dependente e mais simbólica.


Importa ressaltar que a individuação não elimina completamente as fragilidades estruturais do paciente borderline. Situações de perda, separação ou frustração intensa podem reativar temporariamente modalidades simbióticas de relação. Contudo, o paciente passa a dispor de recursos psíquicos mais elaborados para reconhecer essas regressões e, gradualmente, restabelecer um funcionamento mais integrado. A clínica da individuação, em Searles, é, portanto, menos marcada por ideais de normalização e mais orientada pela ampliação da capacidade de o sujeito sustentar sua singularidade sem recorrer à fusão ou à destruição do objeto.


Por fim, Searles concebe a individuação como um processo que transcende o espaço do setting analítico. O analista, progressivamente internalizado como objeto estável e confiável, deixa de ocupar uma posição de sustentação direta para tornar-se uma referência psíquica interna. Essa internalização permite ao paciente investir em relações externas, no trabalho e na vida afetiva, de forma menos marcada pela angústia de abandono ou pela necessidade de controle do outro. Assim, a individuação representa não a dissolução do vínculo analítico, mas sua transformação em base interna para a continuidade do amadurecimento psíquico. Considerações finais A contribuição de Harold Frederick Searles para o tratamento do paciente borderline.


Considerações finais


A contribuição de Harold Frederick Searles para o tratamento do paciente borderline reside, sobretudo, em sua coragem clínica de habitar zonas primitivas da experiência psíquica junto ao paciente. Ao reconhecer a simbiose, a contratransferência e a participação emocional do analista como elementos centrais do processo, Searles amplia significativamente os limites da técnica psicanalítica clássica. Sua obra permanece atual em um contexto clínico no qual os estados-limite ocupam lugar central, convidando o analista contemporâneo a repensar sua posição, seus limites e sua disponibilidade para o encontro analítico.




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