O que se diz querer e o que se deseja: uma leitura psicanalítica da contradição entre discurso e ato na contemporaneidade
- olivanliger
- 20 de jan.
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Introdução
Na clínica psicanalítica, é recorrente o encontro com sujeitos que afirmam desejar algo de forma consciente — um relacionamento amoroso, estabilidade emocional, reconhecimento profissional — mas cujos atos parecem sistematicamente conduzi-los na direção oposta. Essa contradição entre o enunciado consciente e a prática cotidiana não pode ser compreendida apenas como incoerência, falta de esforço ou desconhecimento de si, mas exige uma leitura que considere a divisão constitutiva do sujeito proposta pela psicanálise. Desde Freud, o sujeito do inconsciente é concebido como não coincidente consigo mesmo, atravessado por desejos, fantasias e conflitos que escapam à consciência e se manifestam justamente nos atos falhos, sintomas, repetições e escolhas aparentemente “irracionais”.
Este artigo tem como objetivo discutir, a partir de uma perspectiva psicanalítica, por que os sujeitos dizem querer algo, mas inconscientemente agem de modo a sabotar ou inviabilizar a realização desse querer. Toma-se como exemplo paradigmático a queixa contemporânea amplamente difundida: “quero um relacionamento afetivo”, ao mesmo tempo em que se observam comportamentos que evitam o vínculo, sustentam relações impossíveis ou reiteram experiências de abandono e frustração.
O sujeito dividido e a primazia do inconsciente A psicanálise freudiana rompe com a concepção de um sujeito plenamente consciente de suas motivações. Freud (1900/1996) demonstra, em A interpretação dos sonhos, que os atos humanos são sobredeterminados por desejos inconscientes, frequentemente em conflito com as exigências morais, sociais e ideais do eu. Assim, aquilo que o sujeito diz querer — formulado no registro do eu e da consciência — não coincide necessariamente com aquilo que ele deseja no plano inconsciente. O desejo inconsciente não obedece à lógica da racionalidade ou da utilidade. Ele é estruturado a partir das primeiras experiências de satisfação, das relações primárias com os objetos de amor e das marcas deixadas pela castração e pela perda. Desse modo, o sujeito pode conscientemente desejar um relacionamento amoroso, mas inconscientemente manter-se fiel a fantasias, defesas ou repetições que tornam esse desejo impraticável. Repetição, gozo e fidelidade ao sofrimento Em Além do princípio do prazer, Freud (1920/1996) introduz o conceito de compulsão à repetição, mostrando que o sujeito tende a repetir experiências dolorosas mesmo quando elas não produzem prazer. Essa repetição não é acidental: ela responde a uma satisfação paradoxal, que Lacan posteriormente nomeará como gozo. No campo das relações amorosas, observa-se que muitos sujeitos escolhem parceiros indisponíveis, relações marcadas pela violência emocional ou pela ausência, ou ainda evitam qualquer envolvimento que implique dependência afetiva. Embora conscientemente afirmem querer um vínculo estável, seus atos revelam uma fidelidade inconsciente a formas conhecidas de sofrimento, frequentemente ligadas à história infantil. O sujeito repete não porque quer, mas porque está capturado por uma lógica inconsciente que lhe é anterior. O desejo do Outro e a armadilha do ideal Outro ponto central diz respeito à distinção entre desejo próprio e desejo do Outro. Lacan (1958/1998) sustenta que o desejo humano é, em grande parte, um desejo do desejo do Outro. Muitas vezes, o sujeito diz querer um relacionamento não porque esse desejo lhe é singular, mas porque ele responde a uma expectativa social, familiar ou cultural. O ideal contemporâneo de felicidade amorosa, amplamente difundido pelas redes sociais e pela lógica do consumo, impõe a ideia de que estar em um relacionamento é sinônimo de realização. Entretanto, quando esse ideal não encontra sustentação no desejo inconsciente do sujeito, surgem sabotagens, desinteresse, angústia ou fuga. O sujeito pode desejar 03 manter sua posição de independência, evitar a castração implicada no encontro com o outro ou preservar fantasias narcísicas de completude. Assim, o discurso consciente mascara um conflito mais profundo entre o ideal do eu e o desejo inconsciente. A função do sintoma como compromisso Para a psicanálise, o sintoma não é um simples erro a ser corrigido, mas uma formação de compromisso entre o desejo inconsciente e as exigências da realidade (Freud, 1917/1996). A dificuldade em sustentar relações amorosas pode funcionar como um sintoma que protege o sujeito de angústias mais intensas, como o medo da perda, do abandono ou da dissolução da imagem ideal de si. Nesse sentido, agir contra aquilo que se diz querer não é, necessariamente, um fracasso, mas uma solução psíquica possível naquele momento da economia subjetiva. O sintoma preserva algo do sujeito, ainda que ao custo de sofrimento. Conclusão A discrepância entre o que o sujeito diz querer e aquilo que seus atos efetivamente realizam não é um paradoxo acidental, mas uma expressão da divisão subjetiva fundamental postulada pela psicanálise. O discurso consciente, articulado no campo do eu e dos ideais, frequentemente entra em conflito com o desejo inconsciente, que se manifesta por meio da repetição, do sintoma e do gozo. No exemplo dos relacionamentos afetivos, afirmar “quero um relacionamento” pode encobrir conflitos inconscientes ligados à perda, à dependência, ao desejo do Outro ou à fidelidade a formas antigas de sofrimento. A clínica psicanalítica propõe não a correção imediata desses comportamentos, mas a escuta do sujeito em sua singularidade, possibilitando que ele se responsabilize por seu desejo e, eventualmente, desloque-se das repetições que o aprisionam. Assim, mais do que perguntar “por que não consigo o que quero?”, a psicanálise convida o sujeito a interrogar: “o que, de fato, desejo quando ajo como ajo?”. É nesse intervalo entre o dito e o feito que o inconsciente se revela e que o trabalho analítico encontra sua razão de ser.
Referências bibliográficas FREUD, S. (1900/1996). A interpretação dos sonhos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. IV-V. Rio de Janeiro: Imago. FREUD, S. (1917/1996). Conferências introdutórias sobre psicanálise. ESB, vol. XVI. Rio de Janeiro: Imago. FREUD, S. (1920/1996). Além do princípio do prazer. ESB, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago. LACAN, J. (1958/1998). A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. LACAN, J. (1964/2008). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar



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