Doenças do trabalho - Psicanálise e patologias laborais
- Olivan Liger

- 23 de set. de 2025
- 5 min de leitura
Olá, sejam muito bem-vindos e bem-vindas a mais um episódio do nosso Pensar, do nosso Psicanálise Pensar Cotidiano. Hoje nós vamos dar uma olhadinha em um tema que tem atravessado o dia a dia de milhões de pessoas.
Um tema muito falado, explorado, principalmente com o movimento da NR01 do governo: as patologias laborais, ou seja, o sofrimento psíquico que emerge a partir da relação com o trabalho.
Nós vivemos numa época em que o trabalho não é apenas um meio de sobrevivência, mas se tornou um pilar de identidade, um pilar identitário. Quantas vezes, quando conhecemos alguém, a primeira pergunta que fazemos é: “E aí, o que você faz da vida?”. Isso já mostra que, socialmente, o sujeito é muitas vezes reduzido a um status laboral, a uma função, a um cargo. Essa centralidade do trabalho traz consequências.
De um lado, é fonte de reconhecimento, de laço social, de realização. Mas, do outro, pode se tornar um lugar de exploração, de excesso e de sofrimento silencioso. Nós vamos falar um pouquinho sobre burnout, depressão, ansiedade, sintomas psicossomáticos e também sobre como a psicanálise pode nos ajudar a compreender esse fenômeno e a construir uma nova relação com o trabalho. Vamos começar a partir de uma frase: o trabalho como constituinte do sujeito.
Para Freud, o trabalho é um dos eixos fundamentais da vida. Ele chega a dizer que a vida só se sustenta em duas colunas: o amor e o trabalho. Não se trata apenas de sustento econômico, mas de um campo onde o sujeito pode investir seu afeto, sua libido, sua sublimação, sua criatividade, seu desejo.
No entanto, nos dias de hoje, algo se transformou. O trabalho deixou de ser apenas uma atividade de realização e passou a ser um imperativo moral. É preciso trabalhar sempre mais, render sempre mais, mostrar resultados mensuráveis, produzir a todo custo.
A lógica neoliberal faz do sujeito uma espécie de “empresa de si mesmo”. Cada um deve gerir seu tempo, sua performance, sua saúde, como se fosse um capital. Nesse cenário, a falha, a pausa, o descanso deixam de ser vistos como humanos e passam a ser encarados como fracasso.
Aqui entra a chave psicanalítica: o trabalho não é neutro, ele toca diretamente a constituição subjetiva, o modo como cada um lida com a falta, com o desejo e com o gozo. Para alguns, pode ser fonte de prazer e realização; para outros, pode ser vivenciado como um campo de angústia, cobrança e desamparo.
Se pegarmos, por exemplo, o burnout: o que é o burnout? É o esgotamento do eu. Entre as patologias advindas do trabalho, o burnout é, sem dúvida, a mais falada nos últimos anos. Mas do que se trata exatamente? No discurso médico, é descrito como um quadro de exaustão física e emocional resultante de uma sobrecarga de trabalho. A psicanálise, no entanto, nos ajuda a ir além.
O burnout é um colapso narcísico. Vou explicar. Muitas vezes, o sujeito se identifica profundamente com sua função, seu cargo, sua produção. Não é apenas “eu faço tal trabalho”, mas “eu sou o meu trabalho”. E quando esse sujeito encontra um limite — quando não consegue produzir, quando adoece, quando não alcança a meta — o que entra em colapso não é apenas o desempenho, mas o próprio eu.
Por isso o burnout costuma vir acompanhado de sentimentos de vazio, inutilidade, fracasso. O sujeito se sente esgotado não só no corpo, mas na alma. É como se tivesse depositado toda a sua libido no trabalho e, de repente, esse investimento tivesse se tornado insustentável.
Na clínica já ouvi relatos como: “Eu não consigo mais levantar da cama, sinto que minha cabeça não funciona, perdi o prazer em tudo, até em coisas simples”. Pois é. O burnout revela, portanto, não só o excesso de carga, mas também o fracasso da fantasia de completude pelo trabalho.
O sujeito é obrigado a encarar a falta. E, quando não está preparado, isso vira um caos. Ansiedade? Hoje é quase difícil encontrar quem não a vivencie. No ambiente corporativo, ansiedade e depressão já são praticamente universais.
Essa é outra manifestação muito comum no campo das patologias laborais. Muitos pacientes chegam ao consultório com queixas de insônia, taquicardia, crises de pânico antes de reuniões, sensação de estar sempre atrasado. A ansiedade é entendida como um sinal de alarme.
Freud dizia que ela aparece quando há uma excitação interna que não pode ser descarregada de forma adequada. Em termos simples, é quando o sujeito se sente diante de uma ameaça — real ou imaginária — e não encontra recursos para lidar com isso. No trabalho, essa ameaça pode ser a possibilidade de perder o emprego, de não corresponder às expectativas, de não bater metas, de ser humilhado por um superior. Cada vez mais vemos um discurso empresarial atravessado por um supereu cruel:
“Você pode sempre fazer mais. Você nunca é suficiente. Se não alcançar as metas, está fora.”
Essa voz superegoica leva muitos à depressão. A depressão laboral não é apenas uma tristeza ou falta de energia: é o efeito de uma cobrança interna devastadora que faz o sujeito sentir-se sem valor, sem potência. É a sensação de estar esmagado entre exigências externas e internas impossíveis de se cumprir.
O corpo é também palco de sofrimento psíquico. Nem sempre o sofrimento aparece como ansiedade ou depressão. Muitas vezes, o corpo fala antes da consciência. É o trabalhador que desenvolve gastrite, enxaquecas, dores musculares, dermatites, hipertensão.
A psicanálise nos lembra que o corpo é atravessado pela linguagem. O sintoma físico pode ser uma mensagem inconsciente. Aquilo que não pode ser dito com palavras aparece no corpo como sinal. Não é por acaso que ouvimos expressões como “estou carregando o mundo nas costas” — e surgem dores lombares. “Engoli em seco a humilhação do chefe” — e vem a gastrite. “Não consigo digerir o que acontece no meu trabalho” — e aparecem sintomas intestinais.
O corpo funciona como uma metáfora do sofrimento. Ele traduz em carne e osso o que a psique não conseguiu elaborar simbolicamente.
E o que nós, psicanalistas, podemos oferecer diante de tudo isso? A psicanálise não tem como objetivo eliminar sintomas de forma rápida, como se fossem falhas de uma máquina. Não é assim.
A psicanálise abre espaço para que o sujeito possa falar do seu sofrimento, para que encontre as palavras que faltavam. Na análise, o paciente pode começar a diferenciar o que é exigência externa da empresa, da sociedade, do chefe, e o que é uma imposição interna vinda do próprio supereu.
Esse movimento é essencial, porque muitas vezes o sujeito já não sabe mais se trabalha para sobreviver ou se sobrevive apenas para trabalhar. É disso que se trata: separar o interno do externo.
A psicanálise ajuda a recolocar o desejo em jogo. A pergunta que se abre é: “O que eu quero de fato? O que eu realmente desejo?”. Não se trata necessariamente de abandonar o trabalho, mas de ressignificar a relação com ele. O sujeito que encontra palavras para o seu mal-estar pode reposicionar-se, criar saídas criativas, estabelecer limites ou até tomar decisões mais radicais, se necessário.
As patologias laborais não são problemas individuais isolados: são sintomas de um tempo histórico marcado pelo excesso de produtividade, pelo culto ao desempenho e pelo enfraquecimento dos laços sociais.
A psicanálise nos lembra que, antes do trabalhador, existe um sujeito do inconsciente — um sujeito dividido, marcado pela falta — que precisa ser escutado.
Cuidar da saúde mental no trabalho é também uma forma de resistência. Resistir ao discurso da produtividade infinita. Resistir à ideia de que só valemos pelo que produzimos.
É isso, gente. Por hoje falamos sobre essa questão tão importante que é a saúde mental no mundo corporativo.
Obrigado por acompanhar esse episódio. Eu sou o Olivan Liger, psicanalista, e estou aqui com vocês toda semana. Espero que esse conteúdo tenha despertado reflexões. Até a próxima!



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