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Dependência Química pela Psicanálise: Tratamento, Família, Recaída e Vazio Existencial



RESUMO:


  • A dependência química e sua dimensão subjetiva


O encontro inicia com a proposta de analisar a dependência química sob o olhar da psicanálise. O fenômeno não pode ser reduzido a discursos moralistas como “fraqueza de caráter” ou “falta de vontade”. A psicanálise considera a história subjetiva de cada sujeito, suas marcas e maneiras de lidar com a dor e a falta.


A droga não é apenas uma substância química, mas um objeto simbólico, que pode significar fuga da dor, atalho para o prazer, forma de pertencimento ou promessa de satisfação imediata. Assim, ela se torna um parceiro constante, muitas vezes mais importante que vínculos afetivos, trabalho e até a própria vida.


A constituição subjetiva do ser humano envolve uma falta estrutural — o vazio deixado pelas respostas sempre imperfeitas do outro primordial (a função materna). A substância entra como suplência, funcionando como uma chave mágica que alivia dores, ansiedades e solidão. Esse processo leva a um ciclo de compulsão, descrito por Freud como “compulsão à repetição”, em que o sujeito usa a droga não mais para o prazer, mas para não enlouquecer diante do vazio.


O uso, portanto, não é apenas um vício, mas uma forma de organizar a vida psíquica. Retirar abruptamente a substância pode desestabilizar toda essa economia interna, favorecendo recaídas. O tratamento exige a criação de novos laços, sentidos e desejos. A família tem papel central nesse processo, tanto no apoio quanto na reestruturação dos vínculos afetivos.


  • O papel da família e a importância da palavra


A recuperação depende também da reorganização familiar. Se o sujeito retorna para um ambiente conflituoso e nada muda, a recaída é quase certa. A família deve estabelecer limites e responsabilidades, ao mesmo tempo em que amplia a rede social do usuário, oferecendo novas formas de convivência.


A psicanálise valoriza a palavra: o dependente precisa falar de sua história, suas dores e traumas. A substância é apenas a ponta do iceberg; o problema é anterior e enraizado na constituição subjetiva. O tratamento, portanto, envolve a reconstrução de laços sociais — com família, amigos, grupos de apoio e trabalho.


O isolamento, comum entre usuários, precisa ser transformado em novas formas de pertencimento. A psicanálise ajuda o sujeito a lidar com a falta estrutural de forma criativa, por meio da arte, esportes, espiritualidade, estudos ou projetos, em vez de buscar a morte pela substância.


  • Família como fator de risco ou proteção:


A família pode ser tanto suporte quanto obstáculo. Se mantém padrões de violência, abandono ou superproteção, aumenta as chances de recaída. Se se reorganiza e participa do processo terapêutico, fortalece vínculos e contribui para reduzir recaídas. O envolvimento ativo e informado da família ajuda o usuário a se reinserir socialmente e a lidar melhor com a complexidade da dependência.


  • A recaída e a escuta psicanalítica:


Na clínica psicanalítica, a recaída não é vista como fracasso, mas como parte do processo, podendo abrir novos caminhos de elaboração. Reabilitar não é apagar a dependência, mas oferecer outras possibilidades de vida.


O analista não assume posição moralista ou de juiz. Seu papel é sustentar a escuta e perguntar o que a droga significa para o sujeito. Isso possibilita que o dependente seja reconhecido como sujeito, não apenas como doente ou fracassado, e encontre seu próprio caminho.


  • Para além das explicações simplistas:


A psicanálise recusa explicações reducionistas. A dependência não é apenas genética, química ou resultado da vontade. Trata-se de uma tentativa de lidar com a falta constitutiva do ser humano.


  • Transformar o vazio em vida:


A droga é uma resposta desesperada e perigosa ao vazio, mas ainda assim uma resposta. O desafio do tratamento é oferecer alternativas de reinvenção, em que o sujeito encontre modos de viver sem precisar se destruir.


A dependência revela que todos somos seres de falta. Alguns transformam essa falta em desejo criativo; outros tentam silenciá-la com objetos mortíferos. O papel da clínica é apoiar o sujeito para que transforme o vazio em potência de vida.





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Psicanálise Contemporânea
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