Relacionamentos em tempos Líquidos
- olivanliger
- 14 de abr.
- 4 min de leitura
Neste episódio, refletimos sobre a fragilidade dos laços na contemporaneidade: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão sós. A partir de Sigmund Freud, Jacques Lacan e Zygmunt Bauman, discutimos como a exigência de felicidade, performance e consumo impacta nossas relações. Em um mundo de vínculos líquidos e superficiais, a psicanálise aposta no encontro real: aquele que exige tempo, presença, falta e coragem para sustentar o outro — e a si mesmo.
Olá a todos os ouvintes do nosso podcast Psicanálise do dia a dia. Vamos para mais um episódio e, hoje, nós vamos falar da questão dos laços frágeis, da nossa dificuldade de amar e de pertencer nos tempos atuais, nessa contemporaneidade.
Bom, começamos falando de um tempo paradoxal. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão sós. As redes sociais nos prometem proximidade, mas o que acontece, de fato, é que elas entregam comparação, performance e, pior, distância. A pergunta que o nosso encontro de hoje faz é a seguinte: por que está tão difícil criar laços sociais verdadeiros? E mais: por que a solidão se tornou uma experiência tão comum, mesmo quando estamos cercados de pessoas?
Se pensarmos na psicanálise, desde Freud sabemos que ele sempre se interessou pelos vínculos humanos. O sofrimento psíquico não nasce isolado; ele se constitui na relação com o outro. Existe uma questão — e eu sempre volto ao mesmo texto — O mal-estar na civilização, de 1930, onde Freud já apontava que viver em sociedade exige renúncias. Para existir em um grupo, o sujeito precisa abrir mão de partes do seu desejo. Essa tensão entre desejo e cultura nunca desapareceu, mas hoje assume novas formas, vai se transformando.
Se antes o conflito era entre o desejo e a repressão, hoje vivemos algo diferente: uma exigência de gozo constante. Você tem que estar bem, tem que gozar, tem que estar com a “cara boa” o tempo inteiro, tem que mostrar que é feliz. Aqui podemos falar um pouco de Lacan, que nos ajuda a entender que o sujeito contemporâneo não está apenas proibido — ele está convocado a gozar, a ser feliz, produtivo, desejável.
Mas há um problema: o excesso de exigência também isola. A modernidade era organizada por estruturas mais estáveis. Tínhamos, há algum tempo, a família, a religião, a tradição. Hoje, essas referências se perderam, se fragilizaram. Bauman chamou isso de modernidade líquida: relações fluidas, instáveis e descartáveis.
Na lógica atual, os vínculos são facilmente substituíveis. O outro vira objeto de consumo, e aquilo que era compromisso passa a ser visto como ameaça à liberdade. Onde isso resulta? Em relações mais frágeis e superficiais.
Do ponto de vista da psicanálise, o laço social nunca foi simples. O outro não é apenas fonte de amor; é também fonte de angústia. Freud já dizia que o próximo pode ser objeto de amor, de exploração ou até de destruição. Na contemporaneidade, essa ambivalência se intensifica, porque o outro exige, frustra, confronta nossa falta.
Diante disso, muitos sujeitos fazem um movimento silencioso: evitam o encontro real. Vivemos, então, um aumento significativo do narcisismo. Mas é importante entender: não se trata de amor-próprio saudável, mas de uma tentativa de evitar o sofrimento do vínculo.
E aí o sujeito contemporâneo muitas vezes prefere controlar a imagem, editar a própria vida, se relacionar sem implicação. Um autor chamado Christopher Lasch já falava na “cultura do narcisismo”, onde o outro deixa de ser um parceiro e passa a ser um espelho. A lógica do narcisismo é ter ao lado pessoas que sirvam como espelho, que pensem igual, que compartilhem a mesma ideologia.
Criam-se bolhas narcísicas, grupos homogêneos. Mas há um efeito colateral inevitável: quanto mais o sujeito se fecha em si, mais ele se sente sozinho. E aí surge a nossa famosa solidão contemporânea.
A solidão de hoje não é apenas a ausência de pessoas; é algo muito mais profundo: é a ausência de reconhecimento. O sujeito pode estar em um relacionamento, em um grupo, em uma família e, ainda assim, se sentir invisível.
Aqui podemos pensar em Winnicott, que fala da importância de um ambiente suficientemente bom. Sem esse ambiente, o sujeito não se sente sustentado, não se sente visto, não consegue se constituir plenamente. A solidão, então, não é apenas estar só; é não conseguir existir para o outro.
E onde entra a tecnologia e os laços digitais, tão comuns hoje? As redes sociais criaram uma nova forma de vínculo: rápido, superficial e baseado em imagens. Elas oferecem conexão sem exposição real.
A psicanálise nos ensina que não há laço sem falta, sem risco e sem atravessamento. O mundo digital, muitas vezes, elimina o silêncio, o desencontro e o tempo necessário para o vínculo. E o que resulta disso? Um empobrecimento da experiência do encontro.
Mas é possível ainda construir laços hoje? Apesar do cenário, a resposta não é pessimista. Nós, psicanalistas, apostamos em algo fundamental: o laço é possível, mas exige trabalho.
Criar vínculos hoje implica tolerar a frustração, sustentar a diferença, aceitar que o outro não nos completa. E, como diria Lacan, amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer. Ou seja, o laço verdadeiro passa pela falta, não pela completude.
Talvez a grande questão da nossa época não seja a falta de conexão, mas a dificuldade de sustentar encontros reais. No mundo que promete rapidez, controle e satisfação imediata, o laço exige o oposto: tempo, presença, vulnerabilidade.
E talvez seja justamente por isso que ele se torna tão raro — e, ao mesmo tempo, tão precioso.
Essa solidão contemporânea não é um destino inevitável, mas um sintoma de um modo de viver que evita o encontro. E a psicanálise nos convida a um movimento contrário: arriscar-se no laço, mesmo sabendo que ele nunca será perfeito.
Vamos refletir um pouco sobre isso, sobre nossos laços, sobre como estamos construindo nossas relações. Isso é muito importante nos tempos atuais, porque cada vez mais a clínica está repleta de queixas de solidão, de falta de vínculos, de ausência de apoio nos momentos de sofrimento.
E isso nos leva a questionar profundamente a forma como estamos vivendo.



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