Homossexualidade e envelhecimento





Arnaldo Domínguez: médico, psicanalista, analista e supervisor institucional



 

 

 


 

“Atraso. Hoje eu acordei tão ontem que me esqueci. Um amanhã já passou por aqui”
– Samuel Malentacchi



Os organizadores da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo gentilmente me convidaram para falar sobre o tema destacado no título deste artigo. Eu possuo mais de um atributo que, supostamente, me autorizaria a tratar do assunto em questão. Fui médico geriatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) durante boa parte da década de 1980, em cujo entardecer, iniciei estudos de Gerontologia Social no Instituto Sedes Sapientiae e, logo a seguir, Sexualidade Humana no Instituto H. Ellis. Ao mesmo tempo em que ingressava na formação informal em Psicanálise, iniciava minha análise pessoal e participava da militância do Movimento GL de São Paulo, por intermédio de nosso Projeto Etcétera e Tal, debatendo ativamente em favor daquela sigla que ofereceria mais visibilidade às lésbicas em vez do anterior Movimento Brasileiro de Homossexuais, tão “masculino”.



Reencontrarmo-nos Marisa Fernandes e eu, nesse debate promovido pela organização da Parada do Orgulho LGBT, nos fez recuperar a lembrança daquele (re)início da militância em prol dos direitos de gays, lésbicas, travestis e transexuais, e concluir que, talvez, também, nós tenhamos de lutar, agora, pelos direitos dos “envelhecentes” que somos.



Se eu, por um lado, me afastei da luta engajada, por outro, dediquei-me profundamente, desde então, à clínica psicanalítica, descuidando, por assim dizer, de aprofundar-me nas leituras sociológicas, apesar de ter coordenado e organizado vários debates destinados à elaboração de políticas públicas nessa particularidade. Certa voz autocrítica me acusa de ter feito pouco. Porém, como bem sabemos todos e todas, não se pode tudo. E isso entra no capítulo da castração da teoria psicanalítica e, em consequência, na ordem da falta e do desejo.



Um bom lugar para início de conversa.



Movido por esses estímulos, fui à internet em busca de trabalhos teóricos a respeito do assunto para poder me atualizar dentro do meu escasso tempo “disponível.com”. E me surpreendi ao constatar que a maioria desses estudos trata de temas relacionados à saúde, contágio do HIV na terceira idade, idosos portugueses que acabam sendo separados dos parceiros ou das parceiras de longa data quando necessitam do amparo institucional e se deparam com locais de discurso oficial homofóbico e heterossexista. Idosos brasileiros que nem sequer podem contar com essas instituições preconceituosas e, quando dispõem da possibilidade de consultar um médico, não revelam sua “orientação sexual”. Dados ainda semelhantes aos de uma pesquisa que realizei entre 1990 e 1992 e que foi, na ocasião, amplamente difundida em revistas científicas e outras destinadas ao público em geral.

Um dado significativo de minha pesquisa era que 70% dos médicos clínicos consideravam a homobissexualidade uma doença, e 50% não perguntavam nada sobre a sexualidade dos pacientes nas consultas. Os médicos não perguntam e os pacientes não falam. Silêncio promissor. “Na escuridão, surge o vaga-lume; NO SILÊNCIO, O GRILO”, escreveu Júlio Paulo Calvo Marcondes, o Faquir Loquaz, em publicação póstuma realizada para homenageá-lo, dentre outros, por sua namorada que foi minha analisante. Ela me presenteou com esse livro tão encantador.



E o grilo é: tudo indica que ainda persiste um panorama desalentador para todos/as os/as velhos/as, independentemente da modalidade de investimento libidinal de cada um deles. Provavelmente, agravada nos (ditos) homossexuais, pois, se na atualidade são idosos, certamente, pertencem a uma geração muito mais oprimida pela intolerância social e familiar, como revelam os entrevistados por Naélia Forato e Romulo Osthues, jornalistas que foram a Buenos Aires coletar depoimentos de casais homoafetivos cujos interesses rondavam a igualdade pelo direito do casamento civil2. Cidadãos de primeira, agora – finalmente –, amparados pela lei que os autorizou a se casar depois de uma parceria de mais de 40 anos.

Em contrapartida, as agências de turismo contemporâneas oferecem roteiros gays de maneira pouco discriminatória ou até claramente destinada aos “coroas”. Os mais velhos, quando conseguem uma boa colocação profissional, ganham mais e gastam menos com despesas escolares, médicas em planos de saúde para filhos etc., representando uma boa fatia para o “Deus Mercado” poder morder.



Então, nesse recorte que ora inicio, já tenho como separar dois aspectos da sexualidade que podemos destacar: o que a nega, considerando que velhice e sexualidade são critérios antagônicos; e o que a valoriza, ao apostar nesse público consumidor, que dispõe de bons recursos. Como disse doutor Casimiro, um obstetra de 94 anos, na ocasião em que o convidei para falar sobre “sexualidade na terceira idade” – se eu não me equivoco,  em 1989, no Sedes Sapientiae: “Para se manter sexualmente ativo na minha idade, é preciso dispor de uma boa aposentadoria!”. Todos riram!



Todavia, antes de avançar mais nesse raciocínio, vou lhes apresentar uma rápida noção do que é sexualidade em Psicanálise. E, para elaborar tal critério, tenho de ir aos primórdios dessa disciplina. Viagem rápida.



Envelhecer leva muito tempo, contudo, geralmente, quando percebemos o tempo, que não para, esse já passou enquanto nos distraíamos em busca do objeto perdido. Freud concluiu que o objeto está perdido para sempre quando abordava o discurso da pulsão nos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, publicados em 1905. Sendo sexual por excelência a pulsão, nisso consiste a diferença fundamental com respeito ao instinto. A pulsão não ter objeto significa que qualquer coisa pode ocupar o lugar de “causa do desejo” e, frente à impossibilidade da “relação sexual”, no sentido de incompletude narcísica, representar o objeto perdido.

Com essa descoberta fantástica, Freud elevou à condição de objeto digno da designação de “erógeno” qualquer segmento do corpo, qualquer peculiaridade que pode ser transformada em uma significação fálica: seios, bunda, pênis, beleza, juventude etc. Mas, também, podem uma ruga, uma estria, uma calvície, uma voz etc., desde o real, desempenhar essa função imaginária e simbólica. Como o objeto do desejo é metonímico3 e empurra a pulsão a exercitar múltiplos deslocamentos, encontraríamos, aqui, uma razão para a poligamia (denominada promiscuidade em muitos contextos moralistas), para a compulsão sexual, para o consumo de produtos nos sex shops ou nos mercados do sexo.

Por outro lado, diferentemente do instinto que está atrelado sempre aos ciclos circadianos4 da biologia e, portanto, alienado a uma sobredeterminação bioquímica pré-datada, a pulsão é atemporal e, em consequência, não envelhece a despeito do corpo. Eis o trágico da condição sexuada da humanidade.

Um freio simbólico a esse eterno deslocamento é o amor. Outro, imaginário e da ordem da inibição, é o isolamento ou o adoecimento que aparecem como despedida no famoso tango: “Adiós, muchachos, compañeros de mi vida, (...) mi cuerpo enfermo no resiste más”. O amor, quando é por outro, implica em uma renúncia ao gozo imposto pela pulsão. Se, para Freud, a pulsão era uma mitologia que funcionava como intermédio entre o biológico e o psíquico, para Lacan, trata-se de um dos conceitos fundamentais da Psicanálise destinado a intermediar a articulação entre o corpo e o significante. Portanto, também, podemos avançar desde o narcisismo do amor rumo à renuncia desse gozo autoerótico e privilegiar na estrutura um lugar para a alteridade. Para o “hétero do amor”, algo tão difícil de imaginar.

Um dos fins principais da experiência psicanalítica consiste na perspectiva de mudança na posição subjetiva, digamos, naquilo que da gramática estávamos atrelados às bordas da pulsão. Freud apresentou-a ativa, passiva e/ou reflexiva. Por exemplo, do olhar: ver, ser visto, ver-se. Do sadismo oral, protótipo do amor materno: comer, ser comido, comer-se. Assim, estabelece-se no fantasma do sujeito uma posição subjetiva que aprisiona.  Mal visto, mal comido, para pensarmos pela via do pior, que é o mais comum na clínica. Ou, então, como se diz popularmente, “fodido e mal pago”, “cagado” etc. Resulta muito difícil e trabalhoso modificar essa sobredeterminação – psíquica no caso. Tanto quanto sua oposição ativa e cínica: “Cagando e andando”; “Perco o amigo, mas não perco a piada”; “apertei a tecla ‘foda-se’”.

A grande maioria dos falantes quer parar de sofrer (como prometem os religiosos), mas não topa abrir mão dessa velha e conhecida prisão gramatical na qual goza. Digamos que são pouquíssimos os fala-seres (como define Lacan, os “parletres”) que podem tornar-se “hétero” – permita-me brincar com o sentido desse significante, sem pretender ofender a nenhuma militância por direitos humanos. Se hétero indica que haverá um lugar para o outro sexo (a sexualidade do outro com todos esses meandros) e, assim, na parceria, sejamos (por fim) dois, será preciso que haja uma renúncia em buscar “alguém que caiba no meu sonho”, como cantava Cazuza. Eis aqui a única perspectiva de que o amor seja por outro e de que se torne possível o encontro amoroso que rompa com a solidão humana cada vez que ele (o encontro) se produza.

A grande maioria dos humanos – pertençam à categoria sociológica que pertencerem – chega à velhice sem ter sequer se questionado a tal respeito. Nada como acompanhar os (não) submetidos ao público através das Comissões da Verdade para compreender, perfeitamente, que os canalhas também envelhecem. Imutáveis.



Pimenta para os olhos
“Yo soy como el chile verde, llorona, picante, pero sabroso...”
– Trecho da música mexicana “La Llorona”.



Pesquisando pela internet descobri:



- A pesquisa de Júlio Assis Simões, “Homossexualidade masculina e curso de vida: pensando idades e identidades sexuais”, do Departamento de Antropologia da USP.



- Andrea Moraes Alves, em “Envelhecimento, trajetórias e homossexualidade feminina”, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.



- Siqueira, M. S., em “Arrasando horrores: uma etnografia das memórias, formas de sociabilidade e itinerários urbanos de travestis das antigas”, tese de doutorado em Antropologia Social, Universidade Federal de Santa Catarina. Uma de suas entrevistadas, Sarita, conta que, pela Cinelândia “andávamos de uma ponta a outra, desfilando para lá e para cá. Foi quando eu conheci todo mundo. Fui para a Cinelândia, conheci a Rogéria, a Valéria, a Eloína e a Veruska, aquela turma da antiga, mesmo. Foi ali que eu me achei, ver que aquilo ali era o meu ambiente”.



- O curta-metragem “Depois de Tudo” (2008), dirigido por Rafael Saar e que tem Nildo Parente e Ney Matogrosso como intérpretes dos personagens principais. Em síntese, é apresentada uma relação (pelo visto, longa) de dois homens idosos que se encontram para um jantar trivial, para assistir ao mesmo filme, “Quando voam as cegonhas”, pela décima vez, para transar, calmamente, como corresponde a dois velhos e, depois, separar-se mansamente sem saber quando se reencontrarão. O velho e conhecido “me liga, tá?”, que remete ao “olá, como vai?” do “Sinal Fechado”, de Chico Buarque. Ou que remete aos “Diálogos sobre os prazeres do sexo”, obra em que o filósofo Michel Foucalt afirma que o melhor momento do amor (homoerótico) é quando o amante vai-se embora no táxi.

O filme é bonito, tranquilo. Apresenta sem pudor os corpos envelhecidos de dois amantes masculinos. Mas também apresenta uma “comidinha caseira”, insossa, que origina a pergunta: – O que falta?
– Pimenta! Responde Ney, depois de provar sem se queimar.
– Tá bom. Vai tomar seu banho!



E eu me recordei, mais uma vez, das espanholas de minha infância que haviam ido tão longe de sua terra natal, negociadas entre os pais e os viúvos galegos da Patagônia Argentina. Contou-me uma delas, que, desde Buenos Aires, ao descer do navio, telefonavam para as amigas que já estavam lá e perguntavam se o candidato a marido (por procuração) tinha “sal e pimenta”. O que significava, decodificando, “posses econômicas e potência sexual”. Caso não os tivesse, era melhor ficar na capital como domésticas, e até nos lupanares (do amor, onde o coração é o principal proxeneta).



Que falte pimenta, como sugerido nesse filme, talvez seja revelador do fim de “A idade viril”, como escreveu Michel Leiris, dedicado a Georges Bataille. (Ed. Cosac & Naify):



A seguir, a ideia de morte, na qual mergulhei pouco a pouco, pensando no declínio inevitável daquela mulher alguns anos mais velha que eu. Nunca, antes de ter perdido a virgindade, eu havia me preocupado a tal ponto com o envelhecimento. Essa obsessão me veio a propósito do ato erótico que, ao cabo de certo tempo, me pareceu uma derrisão, pensando na feiura que nossos corpos, capazes até então de serem vistos sem aversão, acabariam por adquirir. Cheguei assim a uma espécie de estado místico, condenando – em nome da morte – o amor físico em geral, sem ousar confessar-me claramente que era de um amor particular que me cansava. Dessa época datam minhas primeiras aspirações à poesia, que eu via, propriamente falando, como um refúgio, um meio de atingir o eterno escapando à velhice, e de recuperar, ao mesmo tempo, um domínio fechado e exclusivamente meu, no qual minha parceira não teria como se imiscuir”.



Para o meu gosto, e aqui vai uma provocação, essas são revelações absolutamente masculinas, que não permitem que a mulher (o feminino) venha a se imiscuir, a não ser por meio da poesia. Assim sendo, a pimenta que falta é a da irrupção da feminilidade na relação. Da falta em si que abra perspectivas para um universo da criação.



Que uma relação finalize nesse “acordo de cavalheiros”, sem nunca uma espelunca, nunca mais blues, nunca mais romance, nunca mais drink no dancing, nunca mais feliz, me parece absolutamente desolador. Uma espécie de “estamos conversados”, “passar bem”, sem o grand finale de um desencontro fundamental – sobre o amor que se move, escreveu a poeta Hilda Hilst. Da dimensão da feminilidade que faz transitar o transitório da nossa condição humana.



Como eu também me refugio na poesia, pois sou um aficionado convicto da riqueza da “linguisteria”, finalizarei com um conto auto (erótico?) de minha própria autoria – valha essa redundância.



Eu e Yo
“A palavra amor anda vazia. Não tem gente dentro dela”
– Manoel de Barros



Era uma tarde ensolarada de outono, dessas que eu gostaria que durassem para sempre. Nosso sítio, “A Querência”, do bairro Itaquaciara, em Itapecerica da Serra (SP), resplandecia em cores de manacás da serra, primaveras e hibiscos, constituindo um policromatismo contrastante com o amarelo forte dessas outras espécies que florescem exuberantes na quaresma.



Com as mãos ensanguentadas por causa dos espinhos, eu colhia limões antes que apodrecessem. Sua abundância exige que tenhamos de escolher, dentre os nossos conhecidos e amigos, vários que mereçam receber, cada um, um saco recheado deles de presente todo ano. Estava distraído na tarefa quando, de pronto, por detrás de um arbusto, eu avistei um menino.
– Quem é você? Perguntei com grande intriga. Entretanto, o menino permaneceu de costas para mim como se estivesse olhando para o nada bem ao longe. Ao se virar depois de eu ter lhe tocado o ombro, reconheci-o de imediato. Era eu mesmo o menino com, no máximo, cinco ou seis anos de idade.
- O que fazes aqui? Insisti. Mas notei, pelo olhar contrariado, que não havia entendido uma palavra.
- ¿No entiendes portugués?
E respondi que não com a cabeça.
- ¿Vos sabes quién soy yo?
Novamente silêncio, negativa e um olhar fascinante. Ao menos, a mim me fascinou a expressão desse menino e, por instantes, assustado, senti que compreendera a causa de certo tipo de amor que pode se confundir com pedofilia nestes tempos sombrios. Mas essa besteira de pensamento inconveniente foi fugaz e passou logo. Praticamente, já não me recordo de quase nada do que pensei a tal respeito.



Eu, que não tive filhos, me senti de pronto frente a um neto. E a ternura que me invadira me levou, sem hesitar, a abraçá-lo fortemente. Tomado por uma alegria incomensurável, tive o ímpeto de mostrar todos os lugares do sítio para ele. Uma vontade imensa de lhe contar que tudo aquilo seria dele algum dia. E que, por se tratar de um lugar de valor incalculável, onde eu passei grande parte de minha vida e onde vivi uma longa companhia junto de um bom parceiro a quem amei durante muito tempo e que fomos tão felizes desfrutando ano a ano das colheitas...



Mas logo me contive. O que é isso? Não pode ser mais do que um sonho. Aliás, ontem, antes de dormir, eu li o “Livro de Areia”, de Borges, e a leitura certamente exerceu a função de conteúdo manifesto, resto diurno ou algo assim. Não mais do que isto: uma experiência literária.



Não posso contar para ninguém o acontecido. Olhariam para mim escandalizados, tratando de dissimular os pensamentos diagnósticos que lançariam a respeito de minha saúde mental. Ou, quem sabe, quais atitudes tomariam ainda piores. Caso isso viesse a sofrer algum tipo de vazamento, eu me defenderia, afirmando que se tratava somente de um sonho com teor quase de devaneio. Mas que não chega a ter a consistência de uma alucinação. Ocorre geralmente com quem, já de certa idade, não se hidratou de forma suficiente como lhe corresponde e ficou exposto ao sol sem usar protetor.



Todavia, resta agora saber quem de nós dois sonhou com quem. Fui eu quem sonhou com ele? ¿O Yo soñé con él?



A minha indagação interior foi interrompida bruscamente por um gesto do menino. Tocou-me, suavemente, a perna e perguntou:
- ¿Que está haciendo usted en La Enriqueta? ¿Lo conoce a mi papá?
- Claro que lo conozco, respondí. ¡Tu papá es mi papá también y ha vivido muchísimos años!
- ¡No puede ser! Usted aparenta tener mucho más edad que mi papá.
- ¿Cuántos años tiene tu papá?
- 42.
- ¿Y vos?
- Yo tengo cinco. Cumpliré seis el próximo 24 de julio. Yo ya voy a la escuela y ya leo y escribo. ¿Y usted, cuántos años tiene?
- Yo ya pasé de los 70. Pero, calma, que yo no estoy en La Enriqueta en éste instante. ¡Eres vos que estás en La Querencia!



Para provar ao menino que eu estava certo no argumento, mostrei-lhe os limões.

- ¿Ves? En La Enriqueta, no hay limones, disse-lhe sorridente e com expressão de triunfo, ni flores de este tipo. ¿Notaste cuantas flores?
- Yo no veo los limones que usted dice. Yo estoy juntando los huevos porque las gallinas los ponen en cualquier lugar del campo y me lastimé las manos en el alambre de púa. Mi mamá se enojará.
- No, no se enojará. No te preocupes, eu disse, e então compreendi, com certa desolação, que ele realmente estava em outro tempo e em outro lugar.



Entretanto, o que era pior para mim é que, para ele, eu é que estava em outro tempo e em outro lugar. Percebi, com espanto, que eu falava de mim em meus próprios pensamentos, no passado. E que ali buscava um herdeiro para deixar meu patrimônio afetivo a quem transmitir experiências de uma longa vida, já mais próxima do fim. Conclui: ainda bem que poupei um ser humano de ter que arcar com esse fardo pesado de me postergar. Mas isso, cá prá nós, me soou como a fábula da raposa. Contudo, assim foi que em lugar de eu convidar o menino a conhecer o seu futuro, que seria bom, de qualquer modo, digno de ter valido a pena atravessar a vida, foi ele quem pegou na minha mão ensanguentada por causa dos espinhos dos limoeiros da Querência com a sua mão ensanguentada por causa dos arames farpados da Enriqueta e seu significado tão assustador contido no seu nome de alambre de púa.



Para esse tempo, ele me levou, quase em silêncio, e ali compartilhou comigo os segredos esquecidos de sua infância, solitários e ocultos até então. Nós marcamos outros encontros no futuro. Ele me garantiu que virá pontualmente. Eu tenho cá as minhas dúvidas. Depois dos meus 70, eu já não sei mais se o futuro durará muito tempo.

 

Por fim
“MEU QUERIDO E AMADO JOVEM ADOLESCENTE, não liga não. Sempre está tarde demais, sempre é hora de ir embora, mas eu – já são horas de acabar de ser jovem”
– Júlio Paulo Calvo Marcondes, em Faquir Loquaz



BUFONEADA: dias passados, após proveitosa reunião regada a néctar dos deuses da Bahia, descontraí-me em frivolidades destinadas a divertir o rei (ou a criança que me habita), quando tomei uma advertência de muita seriedade, sentindo-me como o Brasil frente à De Gaulle.



– Você não é digno de confiança!



E a risada infantil horrorizou o adulto cuja posição foi de desprezo frente à desmedida, tornando-se representante de um humor ingrato e ácido.



“Jesus não ri!”, alertava-nos Umberto Eco desde “O nome da Rosa”, e assim todo cômico de significativo passara a ser grotesco. Corrompemos o humor nesta cultura, tornando-o assustador, digno de pânico: a risada violenta diante da fraqueza ou da desgraça do semelhante.



Pegadinhas (perversas)!



E a frivolidade (quiçá, digna da corte com seus mexericos) tornou-se felonia (deslealdade, ofensa ou traição), uma tragédia. Na tragédia, o sujeito é objeto do gozo de destino. Na comédia, com a produção da metáfora do mal-entendido, produz-se a separação entre o corpo e o gozo. Produzir sentido é dissolver o significado que por sua vinculação com o referente, o objeto, já não é mais que um vazio.



Todavia, esse episódio me conduziu a Baudelaire para quem a risada é a expressão de um sentimento duplo ou contraditório (“O cômico e a caricatura”). Como o amor se faz presente, essa tragédia se fará comédia (ao querer do deus Mercúrio), perdendo, como perdeu para Dante, seu caráter de “divina”, e, assim, poderemos nos autorizar às bufoneadas que façam cair do trono a sua divina majestade e teremos avançado da miséria neurótica à comum, mornando o sardônico e caminhando pelas bordas dos limites do sarcástico.



Sem cair no melodrama que já inclui a música, as paixões comuns, vingativas das almas pouco nobres e traidoras. Por fim, um correio de Ricardo Alexino, jornalista e professor dessa área, comunicando sua generosidade, me fez cair em lágrimas emocionadas frente à condição de privilegiarmos a amizade como modo de vida.

Nossa próxima Jornada sobre “A Liberdade” ocorrerá na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, graças à intervenção desse amigo de tantas circunstâncias. Por isso, este final é destinado a dedicar as melhores intenções deste artigo ao meu parceiro dos momentos significativos dessa trajetória, Edson Santos de Oliveira, com quem, no próximo dia 3 de setembro deste ano, completarei 18 anos de convívio intenso. Um laço “de maior”. Também, à Nélida Giménez, minha mãe, que teria completado 98 anos no recente dia 10 de maio se não tivesse desistido (obrigada pelo real) em 2007.



Também, dedico à memória e à saudade de meu querido amigo Dion Davi Macedo. E assim, Mariana Freire Friedrich – esta nos ajudou, a mim, Edson e minha mãe, a costurar triângulos em cetim cor de rosa, varando uma noite inteira na tarefa –, Ricardo Alexino, Ítalo Cardoso, Francisco Carvalho, Dolores Juvenal Pinto, Cristina Navarro e todos/as aqueles/as que colaboraram para a realização oficial do evento de 1995, quando, na Praça Roosevelt, em Sampa, nós colocamos “triângulos rosas” nos braços dos que por ali passavam. O sentido era muito sério, mas, por fim, o povo ria. Transformávamos em comédia a tragédia da vida cotidiana de tantos/as – não – falantes do que, quase que até então, nem ousavam dizer seu nome: o amor. Esse célebre informal que, insistentemente, é aprisionado em campos de concentração.



Afinal, será o amor, o trabalho ou a velhice que nos farão livres?



Como disse Rita Lee, “livres outra vez no xadrez”. Shalalá-shalalá...



Itaquaciara, 12 de maio de 2013.