DO CAOS POLÍTICO QUE VIVEMOS: - O (DES)GOVERNO DAS PULSÕES

 

 

 

Autor: Olivan Liger de Oliveira

Co-autores: Bruno Moretti/ Carla Rafaela Diolindo/ Nancy Nuyen Ali Ramadan

Março/2016

 

 

Nota: este artigo é fruto de um debate sobre o tema com os formandos do terceiro semestre da formação em psicanálise do ILPC

 

 

 

 

O momento singular que todos vivem no âmbito da economia e da política, impacta significativamente na subjetividade do sujeito.

Nesse cenário, angustias e ansiedades intensas são trazidas para o divã e justificadas através dos acontecimentos políticos e econômicos que vivemos.

Como ciência do inconsciente, a psicanálise deverá ler a atualidade compreendendo suas manifestações como formações do inconsciente do sujeito inserido no frágil laço social da contemporaneidade.

O momento atual nos deixa entrever diversos fenômenos psíquicos que aparecem no ódio endereçado ao governo, estendido ao partido político; na coesão dos grupos contra e pró-governo; na intolerância a qualquer opinião que não reflita a ideologia de um grupo; na superficialidade das justificativas, de cunho meramente racional, que sustentam o ódio e a intolerância; nos recursos utilizados para a manutenção do ódio e aliciamento do sujeito, criando uma necessidade de aderência ao pensamento coletivo, etc.

No “Mal estar da cultura”, Freud tenta uma compreensão mais ampla de como a cultura se forma e de como o sujeito é nela inserido e conclui que a inserção do sujeito na cultura só é possível mediante a renúncia de pulsões pessoais. Uma das pulsões a ser renunciadas é a destrutividade do homem para com seu par. Em troca de renúncias tão difíceis, oferece-se amparo, segurança e leis que possibilitam seu convívio com os demais. Eros, como fator de união dos homens, é parte da cultura que deseja reunir indivíduos isolados, famílias, tribos, povos e nacões em uma grande unidade: a humanidade. Sem a cultura, retornaríamos à barbarie e nos destruiríamos.

Mas, sendo o homem dual, o que se manifesta através de Eros encobre uma pulsão que habita o interior do organismo, de forma silenciosa, a agressividade.

O governo é uma maioria mais forte do que o indivíduo singular, sustentado pelo estabelecimento de um estatuto legal, garante uma ordem superior a todos os indivíduos isolados, evitando assim a imposição da “lei do mais forte”. O governo é o ideal de ego de uma nação.

O que acontece então quando a cultura deixa de oferecer segurança e amparo? Para Freud, o sintoma maior do desamparo na contemporaneidade é o pânico. Se a cultura já não pode oferecer segurança e amparo, não há porque renunciar às pulsões individuais. Logo, pulsões agressivas e destrutivas manifestadas na forma de violência aparecem no cenário, justificadas pelo ataque à corrupção, ao des-governo e à crise econômica, sustentada pelo direito de luta daquele que se sentiu lesado ou traído.

Há muito falamos em psicanálise, do enfraquecimento do laço social, da falência do Nome-do-Pai. Esses fenômenos se manifestam pela presença do ódio ao outro e pela transgressão à lei e resultam no desprezo à ética.

Somos constituídos pelo Outro. Os processos identificatórios são a base da formação do eu. O descobrimento do Brasil foi guiado pela escassez de metais preciosos, desvalorização da moeda, terras mal aproveitadas e não produtivas em Portugal. O descobrimento de um novo território e a extração de suas riquezas seriam condições essenciais para a manutenção do status de estado nacional forte. Aqui desembarcaram todo tipo de personas non-gratas em Portugal além de jesuítas.

O Art. 333 do Código Penal Brasileiro define corrupção como o ato ou efeito de se corromper, oferecer algo para obter vantagem em negociata onde se favorece uma pessoa e se prejudica outra. Busca oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário público, para determiná-lo a praticar, omitir ou retardat ato de ofício.

Deduzimos que o ato de descobrimento do Brasil e sua colonização implicou em larga corrupção de Portugal quando daqui se extraiu riquezas e muito pouco foi dado em troca. O Brasil funcionou como “quintal”, “despejo” dos portugueses e como fornecedor de gemas preciosas por um longo tempo, sem contar os altos impostos pagos à Coroa.

A corrupção é um traço constitutivo e estruturante do povo brasileiro, identificado com seus colonizadores e que se faz presente no cotidiano do brasileiro, nos pequenos atos. Segundo Carla Rafaela Diolindo, formanda do ILPC:

 

                                                  A corrupção está em todos nós como um traço cultural, qual  de nós nunca colou em alguma prova, já pagou propina, já traiu um parceiro (a),                                                     já pediu para o  chefe te demitir para usufruir do seguro desemprego, já usou benefícios sociais sem preencher os devidos requisitos, já                                                               passou mais volumes do que o permitido no caixa rápido do supermercado, etc...

 

Se aceitamos, sem questionar, os pequenos atos corruptos do nosso cotidiano, porque estamos tão indignados e intolerantes com a corrupção maior do governo?

Sustentamos um pensamento comprado das vitrines da internet, da mídia impressa e televisiva e das redes sociais para dribar a complexidade da situação, resultando numa retórica de cumplicidade esboçada na superficialidade de um pensamento simplista, na pobreza do conhecimento dos fatos e da história política do país e do total desconhecimento do funcionamento do nosso psiquismo.

Segundo Nancy Nuyen Ali Ramadan, jornalista, professora de pós-graduação, doutora em comunicação e formanda do ILPC:

 

                                                 …. A velocidade imprimida pelos meios digitais ao noticiário, que pode ser replicado rapidamente por quem tenha acesso a celulares                                                                    inteligentes ou computadores ligados à internet, torna qualquer notícia – bem apurada ou não – portadora de veracidade para o leitor/usuário                                                  distraído ou apressado, diante do volume de informação despejado ininterruptamente nas telas. Bem apurada ou não, encaminhada e                                                                comentada, para um grande número de pessoas instantaneamente, com status de verdadeira, essa notícia ganha novos comentários e é                                                            novamente encaminhada, num loop permanente.

                                                 É nessa dinâmica que os discursos de ódio fementam. Ali nas edições, nos recortes nas imagens, escolhidas pelas publicações e,                                                                            posteriormente, sem data, pinçadas pelo público. Os ânimos se exaltam, contra ou a favor. É a partir desse momento que as pessoas se                                                              mobilizam. Com fanatismo. Contra ou a favor de pessoas, partidos, instituições, leis. E gritam. E desejam a morte dos inimigos mesmo em                                                          “piadas” inocentes, em “brincadeiras”. E passam a se atacar nas ruas. E esquecem-se dos bastidores sórdidos que não são notícia, lugar aonde                                                    tramam e compõem para se manter no poder aqueles que elegeram. Sim, elegeram por conveniência, má-fé, ignorância ou identificação.

 

Essa dinâmica, recurso usado para manutenção do ódio e para manipulação do povo, reflete bem como legitimamos a corrupção. A mídia em todos os seus segmentos diz combater a corrupção, usando da corrupção, manipulando notícias e selecionando o que, para seu próprio favorecimento, deverá chegar ao povo, inflamando formas de pensar superficiais e nem sempre verdadeiras.

Somos capturados por um jogo de forças, de oposições, de partidarismos e com isto, deixamos de refletir de forma mais profunda acerca da complexidade dessa situação atual.

Para Freud, Deus é uma invenção que ocupa o lugar do pai que deixou de existir. Para não sentirmos desamparados, criamos um Deus capaz de amparar, de prometer um paraíso e nos dá um norte. Mas, não só Deus é capaz de ocupar e dar conta do lugar do pai, a figura de um governante é um pai que promete bem estar e amparo, segurança e estabilidade econômica para a concretização de sonhos. Quando o pai já não pode cumprir o seu papel, sua lei já não pode ser obedecida e com isto, necessitamos destituir o pai frágil para eleger um novo pai capaz de dar conta do nosso amparo e segurança.

O governo do presidente Lula encerrava dois aspectos fundamentais do psiquismo do povo brasileiro. Conseguia no imaginário do povo, fazer coexistir uma certa dose de corrupção com uma promessa de amparo e segurança. O filósofo Bruno Moretti, formando do ILPC diz que:

 

                                                 Talvez por isso, a figura do ex-presidente Lula seja tão forte e, quem sabe, nos remeta a essa figura ambígua do “herói malandro”, de um                                                              trabalhador comum, pobre, que deu o “seu jeitinho” e chegou ao mais alto cargo da nação. É claro que a trajetória do ex-presidente e o que ele                                                  representa não podem ser resumidos a isso, mas essa ideia nos ajuda a entender a situação. Lula, por um lado representa o ideal de homem e                                                  pai que muitos gostariam de ser: poderoso, influente, autoritário, porém bondoso com seus filhos menos favorecidos. Por outro lado era                                                            acusado de ser analfabeto, corrupto e populista, pois supostamente comprava votos com políticas assistencialistas. Não devemos entrar no                                                        mérito de debater pontos positivos e negativos do governo Lula, pois entraríamos numa análise sócio-político-economica, que sempre será                                                        tendenciosa devido ao fato de cada um de nós carregarmos valores e princípios ideológicos diferentes. Portanto creio que somente com um                                                      olhar voltado para as pulsões e afetos, como o olhar da psicanálise, poderemos chegar a conclusões menos tendenciosas.

 

Nesse emaranhado complexo do psiquismo, podemos observar a reação de um povo quando a cultura falha e deixa de cumprir o seu papel de amparo e segurança para seus filiados. A situação atual deixa entrever a pulsão de morte manifestada pela violência, presente na natureza humana. O Ideal de Ego já não pode ser sustentado na imagem de um des-governo em desespero com todas as suas mazelas a mostra, só pode ser sustentado pela figura de alguém cujo poder é incontestável e visivelmente mais forte que os demais.

E, por fim, podemos pontuar o mecanismo de projeção como um dos elementos que contribuem para o exercício do ódio. Tentamos destruir no outro aquilo que possuimos e nos negamos a ver. Atacamos a corrupção do governo, dos políticos e autoridades porque nos mostram aquilo que faz parte da nossa estrutura e constituição. Não queremos renunciar à nossa pulsão perversa de corrupção. Combatemos as grandes corrupções para não nos darmos conta das pequenas corrupções que fazem parte do nosso cotidiano.

Assim, nesse cenário que parece um campo minado, onde o ódio cego não permite qualquer consenso ou respeito à opiniões divergentes, o povo luta contra o povo, pois o que tentamos combater é nossa herança constitutiva, fazendo jus ao lançamento do filme “Batman vs Superman” - herói destruindo herói; pessoas destruindo pessoas usando como mote o combate à corrupção com permissão expressa de serem manipulados por uma avalanche de informações que endossam justificativas racionais criadas para mascarar o que recalcamos.

Resta, por fim, constatar a fragilidade do laço social que abre espaço para o retorno do recalcado e das pulsões primitivas da natureza humana.

 

 

Permitido a reprodução desde que citada a fonte.