PATOLOGIAS DO DESVALIMENTO: CORRELAÇÕES DO DESVALIMENTO COM A PÓS-MODERNIDADE

 

 

 


Olivan Liger de Oliveira
ILPC – Instituto Latino-americano de Psicanálise Contemporânea
presidência@ilpcvirtual.com

 

Resumo: 



Este trabalho propõe uma reflexão sobre o desvalimento como patologia inserida num contexto de mundo pós-moderno. Partindo da incidência de um maior número de pacientes desvalidos nos consultórios psiquiátricos, psicológicos e psicanalíticos, indaga-se a influência dos fenômenos da pós-modernidade como campo fértil para o desamparo psíquico. Busca-se esclarecer se o desvalimento é instalado pela impossibilidade de constituição do sujeito na estrutura familiar a qual pertence ou pelo desamparo global e pelo contexto sócio-cultural que impossibilitam constituir uma subjetividade coletiva e que influenciam a estrutura familiar de forma global.

Palavras-chave: desvalimento; pós-modernidade; desamparo; apatia

 


Abstract:



This paper intends to cause a reflexion about helplessness as a pathology inserted in a postmodernity context. From the incidence of a major number of helplessness patients in psyquiatric, psychologic and psychoanalistic clinics, there is a necessity to ask the influence of postmodern events as a breeding ground for psychic helplessness. It intends to question if helplessness is born by the impossibility of one’s psychic constitution in his family structure or by a condition of global and general helplessness and the influence of sócio cultural context that may not allow a collective subjectivity constitution, resulting on a change in the global familiar structure.

Key-words: helplessness; postmodernity; psychic helplessness; apathy







Introdução:



O desamparo é o estado de impotência que o ser humano encontra perante um sofrimento e segundo Freud, o sofrimento pode originar-se de três distintas direções: da própria decadência corporal que nos leva à morte; do mundo externo e suas forças destrutivas, das quais podemos ser alvos e por fim das relações com os semelhantes.
Há muito a palavra desamparo aparece na literatura psicanalítica. No texto “Projeto de uma psicologia científica”, Freud diz “ O desamparo original do homem é a fonte originaria de todos os motivos morais” (FREUD, 1895, p. 32), mas somente a partir de 1915, a palavra assume uma conceituação nos textos de Freud (BIRMAN, 1999).
Nas últimas décadas, a palavra desamparo passou a aparecer com muita frequência no discurso psicanalítico significando uma estrutura psíquica cuja essência é o vazio. Estudos recentes de autoria do argentino Dr. David Maldavsky  cunharam  o termo desvalimiento para especificar essa estrutura psíquica.
O objetivo desse trabalho é buscar compreender  se a origem da patologia do desvalimento é resultante individual da desestruturação familiar ou resultante global da mudança de paradigmas na cultura e nos valores do mundo pós-moderno

Metodologia:



Para esse trabalho, a metodologia usada foi a pesquisa e revisão da bibliografia psicanalítica e sociológica e a escuta psicanalítica de um paciente em consultório no período de Janeiro de 2008 a Setembro de 2012.

Resultados e discussão:



A mudança de paradigmas na pós-modernidade

Para o sociólogo Zygmunt Bauman (2001) estabeleceu-se a era da liquidez nos tempos pós-modernos. O descartável e fluido prevalecem sobre o duradouro e o sólido. O ideal de amor tornou-se ultrapassado pela facilidade do relacionamento virtual, pelos contratos frágeis e volúveis que fundamentam casamentos e relações humanas. A cultura ocidental pós moderna viu seus valores nobres e elevados diluírem-se como liquido que escapa das mãos e tomar lugar valores que se estabelecem em um modo de vida precário onde predomina a incerteza constante e o medo de exclusão. Os vínculos tem prazo de validade e são fundamentados na gamofobia.


Segundo Gilles Lipovetsky (2002), existe hoje uma grande mutação global que gira em torno de um grande organizador: o consumismo que absorve os indivíduos. O discurso consumista promete a possibilidade de encontrar prazer fácil e rápido na realidade a nossa volta, promovendo a interação entre cultura e subjetividade. O valor de ser cede lugar ao valor de ter, opera-se no quantitativo ao invés do qualitativo. O sentido da vida obscurece e para compensá-lo exacerba-se o individualismo hedonista.


Há uma nova configuração familiar que começa a se construir com a liberação sexual da década de 60. A mulher adquire direitos, inclusive do seu próprio prazer, passa a compor a renda familiar com seu trabalho. O homem, antes único provedor, percebe-se ameaçado em sua autoridade e muitas vezes inferiorizado pela carreira bem sucedida da cônjuge. Incerto do seu papel, também perde a sua função de interdito edipiano. A mãe cede lugar à profissional que compensa a sua culpa de ausência e sua impossibilidade de atender as demandas afetivas do filho, com ausência de imposição de limites. Cindida em seu papel, diante de uma demanda pós moderna de competência, rapidez e posses, muitas vezes a afetividade materna é sobreposta pelos cuidados maternos. Cuidadoras de creches públicas ou privadas serão responsáveis pelo cuidado ou amparo e desenvolvimento do bebê, num ambiente de rotatividade e desapego.


A depressão, patologia da vida pós moderna sem sentido, torna-se epidemia e passa a ser reduzida a um transtorno neurofisiológico combatida com pílulas “mágicas” anti-depressivas que sustentam grandes lucros às industrias farmacêuticas. A depressão e a ansiedade são os sintomas do vazio da pós-modernidade.


A violência se alastra no cotidiano, gerando medo. David E. Levisky (1997) sugere que numa sociedade na qual a violência se torna banalizada ou deixa de ser identificada como sintoma patológico social, há o risco de transformá-la num valor cultural válido a ser incorporado, gerando portanto condições para que a violência física e moral se transforme em elemento de afirmação social do jovem na cultura ocidental. Legitima-se assim a violência e perde-se a dimensão ética, característica cada vez mais evidente na nossa sociedade e que se manifesta através das grandes platéias para as lutas livres, UFC, dentre outras.


É nesse cenário que o desvalimento parece eclodir com mais força e aparecer de forma mais frequente nos consultórios psiquiátricos, psicológicos ou psicanalíticos.

 


Desvalimento:



Freud cita a consciência secundária como a instância relacionada ao trabalho interpretativo analítico de tornar consciente o inconsciente e também faz referência a outra consciência, a qual chamou de originária ou neuronal, anterior às marcas mnêmicas e às representações, a qual tem por finalidade captar a vitalidade pulsional como fundamento da subjetividade. Para que o sujeito se constitua é necessário haver a satisfação de suas demandas básicas de fome, sede, higienização, através das quais agregam-se o afeto, a contenção e o acolhimento da mãe ou de quem exerce a maternagem. As impressões sensíveis do sentir o afeto da mãe garante um investimento na percepção até então desinvestida e indiferente da consciência originária. Iniciam-se as bases para o surgimento da consciência secundária, na qual irão se inscrever as marcas mnêmicas.


O investimento constante na consciência originária inscreverá uma organização do mundo sensível de forma diferente, que será a base para o desenvolvimento posterior do ego.


Quando o investimento do afeto não ocorre ou é insuficiente nas primeiras semanas de vida, a percepção não investida irá impossibilitar a instalação da consciência secundária, gerando um vazio que comprometerá todas as fases de desenvolvimento posteriores, fragmentando ou inibindo o psiquismo.
O desamparo e a identificação com a morte, resultado do vazio afetivo, promoverão a instalação da angústia automática, somática, uma vez que falta à mente a experiência do registro. Prevalece então o princípio de inércia sobre o princípio de constância que se faz necessário para a manutenção da saúde psíquica.


André Green (1988) cunhou o termo “mãe morta” para referir-se a uma mãe fisicamente presente e afetivamente morta em função de uma depressão, um luto ou outras patologias. Uma imago fria que se constitui na psique do recém-nascido substituindo o objeto vivo, fonte da vitalidade da criança em figura distante, átona e inanimada. A mãe torna-se morta psiquicamente aos olhos da criança de quem cuida, comprometendo seu futuro libidinal, objetal e narcisista.

 


A clínica do vazio:



O caso estudado refere-se ao paciente E. E. S., de sexo masculino, encaminhado para análise devido ao seu medo de dirigir veículos automotores, 22 anos, filho único de pais que já vinham de casamentos anteriores. E. aparentava uma formalidade excessiva no início do tratamento. Contava sua história sem nenhum sentimento subjacente. Falava da mãe cujo vínculo se desenhava por meio da posse, da manipulação e da imposição de regras e planos futuros para E., a grande preocupação da mãe era sua atuação social, as viagens internacionais e sua aparência. E. sabia dizer a idade do pai, mas desconhecia a verdadeira idade da mãe, a qual era escondida de todos. O pai, quase com 70 anos, era um homem de caráter rígido, por vezes agressivo, controlador e ausente.


E. tinha uma habilidade especial para desenhar. Trazia alguns de seus desenhos para a análise. O tema presente em seus desenhos era morte e destrutividade. Um dos seus desenhos era um Cristo dilacerado com vísceras à mostra e membros separados. Este desenho especialmente simbolizava a fragmentação e a dilaceração psíquica de E. A família costumava viajar duas vezes por ano para conhecer o mundo. E. apresentava-se sempre muito apático e indiferente a qualquer estímulo interno. Para ele, ir para qualquer lugar do mundo era como ir até o escritório do pai.


Aos 22 anos, E. não comprava ou escolhia roupas para si, a mãe comprava e escolhia suas roupas.
E. expressava profundo ódio dos pais em algumas sessões, em outras o discurso era contraditório e reconhecia que os pais era tudo que tinha na vida, dizia amá-los como se falasse de outra pessoa, sem qualquer afeto ou emoção.


No segundo ano de análise E. se envolvera com drogas, iniciando com maconha, passando a seguir para o álcool, cocaína e crack. Nesse período, numa freqüência de três sessões semanais, expressava toda a sua destrutividade em relação aos pais, planejando minuciosamente e com requintes de crueldade, como os mataria. A análise foi interrompida por um período de nove meses devido a uma internação numa clínica de reabilitação. Após a alta médica, E. retomou a análise. Sexualmente, E. sempre buscava prostitutas para manter relações sexuais e procurava sempre manter-se fiel às profissionais com quem se relacionava. O período de internação serviu para estar em contato com todo tipo de internos e se interessar por satanismo. Aderiu a um grupo de práticas satânicas pela internet e logo se iniciou em rituais com matanças de animais. O pai, vistoriando-lhe o computador, descobriu as conversas de E. e ameaçou interná-lo por tempo mais longo. E. afastou-se do grupo de práticas satânicas e se aproximou de um grupo de jovens delinqüentes, alguns com passagens pela polícia. Nesse grupo conheceu K., uma jovem de 17 anos, por quem se apaixonou perdidamente. Passaram cinco meses namorando, entretanto as sessões desse período eram repletas de uma angústia e insegurança de E. em relação a um possível abandono de K. Controlava todos os passos da namorada, comprava-lhe presentes caros e a levava a jantares em restaurantes sofisticados. Depois de cinco meses, sob forte pressão e dominação de E., K. terminou o namoro. Aqui, percebe-se a compulsão à repetição na qual E. remonta a sua história com sua mãe. Logo após o término do relacionamento E. demonstrava novamente toda a sua destrutividade nos conflitos familiares, com o analista e com todos a sua volta. Acreditava poder voltar com K. e mergulhava em crenças místicas procurando apoio para suas confabulações e fantasias. Dizia sempre que K. era sua alma gêmea e que estaria com ela mais cedo ou mais tarde.



O paciente desvalido aparenta uma indiferença para com a vida, uma apatia oriunda do princípio de inércia imposto pela pulsão de morte. Aparenta uma insensibilidade à dor e ao sofrimento com traços de caráter narcísicos, considerando que sua constituição estagnou-se antes de alcançar o reconhecimento do outro. No caso acima exposto, a apatia do paciente predominou em todo o processo analítico. Quando saía de sua apatia explodia em ódio e agressividade. Todo o trajeto do processo analítico, E. demonstrava a presença da angustia automática , apatia e prevalência da pulsão de morte.

Falava sobre o seu amor por K. referindo-se ao seu domínio e posse. K. era a possibilidade de contato com a subjetividade que E. não acessava e nem tinha registro. Nesse caso, pode-se perceber uma aparente depressão, porém sem tristeza. Não houve a perda do objeto porque este nunca existiu, levando a E. à uma identificação com a morte, com o nada.



A qualidade de transferência estabelecida, usando um termo de Zimerman era uma “transferência natimorta”, amorfa, que fazia com que E. nunca faltasse a uma sessão, mas também não demonstrasse nenhum afeto ou interesse pela sua análise. Vinha à análise como se cumprisse um script, de cordialidade à agressividade para com o analista. A contratransferência possível de ser sentida era de desânimo, desistência e impaciência.

O vazio tende a ser preenchido, no caso de E. com o abuso de substâncias que acreditava poder preencher o nada, mas que o entorpecia para não se dar conta do vazio e da inércia que vivia.



Quanto aos traços de caráter, Bick (1968 apud COSTA, 2010, p. 67) cita a viscosidade como característica do desvalimento. A viscosidade pode ser traduzida como a necessidade do apego a um mundo imediato e sensível, aparecendo na análise sob a forma de docilidade lamuriosa, buscando despertar a compaixão do analista. São pacientes que pedem mais do que ver e ouvir o analista, precisam tocá-lo, invadi-lo, perguntar sobre sua vida pessoal, desviar a análise para um universo relacional estéril e frustrante, o  qual resulta numa contratransferência de raiva e desejo de livrar-se do paciente. Elogiam o trabalho do analista mas são incapazes de promover mudanças relevantes durante o processo analítico.


Meltzer e Williams (1990 apud COSTA, 2010, p. 68) citam como característica do desvalimento o cinismo que se apresenta como uma fachada sarcástica, de falso bem-estar ou felicidade que visa acobertar a desgraça de uma vida estéril, sem projetos e sem esperança.
O traço abúlico citado por Maldavsky (1996 apud COSTA, 2010, p. 68) é a expressão final da pulsão de morte impondo a monotonia e a inércia. O desamparo leva a um desinvestimento do ego pelo narcisismo e pela autoconservação, evidenciando a eficácia do impulso de morte.
E. apresentava um traço viscoso, uma adesividade ao analista a quem pedia endosso das suas ações e do seu pensar. Tentava invadir sempre o analista com perguntas pessoais referentes a outras atividades que o analista exercia e a lugares que possivelmente o analista freqüentava.

A organização do pré-consciente de E. apresentava-se através de um discurso inconsistente, catártico e numérico.


Logo que E. adentrava o consultório e deitava no divã, iniciava seu discurso por dizer:
- Hoje eu tenho muita coisa para falar, deixa eu falar tudo primeiro senão não vai dar tempo de eu falar tudo que preciso.
E por vezes, o analista tentava intervir, mas E. parecia não escutar e estar mergulhado no seu universo de inconsistência. O discurso numérico aparece em diversas sessões:
- O Yantra1 é um círculo com 8 pétalas. Exatamente oito anos de diferença entre eu e a K.. Fico surpreso com tantos sinais! Eu nasci no dia 08 do mês quatro, Buda deu 84.000 ensinamentos no mundo. Você já ouviu falar da quarta dimensão?
- Não, mas o que....
- É onde habitam os reptilianos, eles não são seres maus, apenas não sabem lidar com sentimentos. É exatamente como K. A Tara2 vermelha, você sabe o que é? Pois é, é o estado desperto de iluminação do budismo. Existem 21 taras e quando eu comecei a namorar a K., ela ia completar 21 anos. Eu comecei a namorá-la às 5 tarde, era a hora que conversávamos quando saiamos da casa de F. (amigo), no quinto mês, Maio, durou exatamente cinco meses e terminamos às 5 horas da tarde. 5 é o número da alma-gêmea. E a lua azul, você chegou a observar? Não, não é mesmo? Ela tem um período de sete dias, atinge o ápice no terceiro ou quarto dia e justamente nesse período eu sonhei com K. Era um sonho estranho. Ela estava deitada num negócio tipo esse (aponta o divã) inerte, olhar vazio, como se não tivesse vida, um boneco, uma estátua sem vida... num ambiente cinza... cinza é a neutralidade. Somando tudo que eu já tinha, o sonho só confirma que eu vou estar com ela.

Além do discurso inconsistente, catártico e numérico, E. projeta no seu sonho a sua própria imagem, o seu vazio e a sua inércia na vida, sua apatia.



- Tá muito próximo a acontecer alguma coisa, o que você acha?
- O que te leva a pensar dessa forma?
- Eu não sei explicar, mas você não percebe isto?

Aqui, um traço de viscosidade, a busca do endosso do analista todo o tempo.
Buscando trazer E. para sua realidade, o analista pergunta:
- Como está a sua atuação em casa, com sua família?
- (Irritado) Não sei por que você sempre pergunta a mesma coisa, meus pais nunca vão melhorar, eles nunca vão mudar.


Embora o analista insista na indagação, E. sempre atribui a responsabilidade dos conflitos familiares aos pais e novamente foge para seu mundo místico, inconsistente, numérico e colorido:
- Estive estudando sobre Kali yuga3, a deusa da morte, aspecto de tara e protetora das diversidades sexuais. É uma polaridade feminina gritante, conhecida como “a negra”. Kali é a mãe dos vitoriosos, dos auspiciosos. Não se parece nem um pouco com Hela4, que é metade uma mulher bonita e metade um corpo podre e que controla os mundos inferiores.

Aparece aqui um espectro da pulsão de morte, na figura da deusa negra. Hela talvez possa mostrar o que ele aparenta e o que ele sente; alguém bonito, apresentável, mas que por baixo se sente em decomposição, imerso num mundo inferior, de onde não consegue sair.



Para a clínica do vazio, faz-se necessária uma inovação técnica, uma vez que não se fundamenta no prazer-desprazer de uma erogeneidade representada, mas no princípio primitivo carente de inscrições psíquicas de tensão-alívio de descargas. A atividade interpretativa torna-se ineficaz e é sentida como uma intrusão pelo desvalido. O trabalho na clínica do vazio é fundamentado na busca de tornar consciente uma percepção, uma vez que não estamos buscando o que foi reprimido ou expulso, mas o que não foi vivenciado, experimentado. O projeto analítico tem por finalidade a construção de experiências, senti-las, vitalizá-las e pensá-las, um caminho possível para se construir significação no vinculo analítico. O analista deverá funcionar como a “mãe viva” em oposição à “mãe morta”, suprindo os buracos psíquicos, importando-se, facilitando, reanimando, explicando, reconhecendo, contendo, discriminando e inter-relacionando.

 


O sujeito desvalido no contexto pós-moderno:



O mundo pós-moderno é pautado por mudanças radicais nos paradigmas vividos anteriormente. As tradições que moldavam o comportamento dos indivíduos promovendo uma conexão entre gerações, ruíram de tal forma que as gerações mais antigas perderam sua conexão com as gerações novas. A perenidade de valores e instituições, enquanto estabilidade e ordem faliu, resultando num sentimento constante de incerteza e insegurança no homem pós-moderno.


Para o psiquiatra vienense Viktor Frankl (1991), as principais características do vazio existencial são a presença do tédio e a impossibilidade de planejar e pensar o futuro, resultando num estado de fadiga e desvitalização diante da existência.


O mundo passa a ser explicado pela razão, conduzindo o homem moderno à busca de conhecimento científico e afastando-o do contato com seus próprios afetos. Os afetos saem da subjetividade para serem objetivamente dissecados pela neurociência. A identidade pós-moderna se constrói pela aquisição, impelindo o homem a competir cada vez mais agressivamente para ser reconhecido pelo que possui. A coletividade se desmantela diante da ruína das tradições e da perenidade, resultando num isolamento característico de um individualismo narcísico.



A angústia instalada na pós-modernidade, que indaga um sentido para a vida, é silenciada pela busca constante de atividades, festas ruidosas, mega eventos, divertimentos intermináveis, drogas e sexo.


A perda do sentido e da direção, resultante da desreferenciação e entropia (todos os discursos são válidos, tudo vale) incidem numa crescente epidemia de depressão. Mães deprimidas podem ser geradoras em potencial de sujeitos desvalidos. Segundo Gilles Lipovetsky (2002), a hipermodernidade, termo usado para sugerir a continuidade da pós modernidade, é caracterizada pelo consumismo, individualismo, a ética hedonista e a fragmentação do tempo e do espaço.
O medo gerado pela insegurança e incerteza de um futuro próximo é difuso, pois a ameaça pode vir de qualquer direção, resultando na exclusão do outro, do “diferente”, no isolamento que sacrifica a liberdade em detrimento da auto-preservação.


Nesse contexto o sujeito desvalido passa despercebido, mescla-se e dilui-se no desvalimento existencial da pós-modernidade. Encontra no mundo um eco para o seu desamparo.

 


Conclusão:



A pós-modernidade tornou-se um campo fértil para o crescente surgimento de pacientes desvalidos, uma vez que encontramos características do desvalimento individual num âmbito global, tais como: fragmentação, desamparo social, perecibilidade, valores superficiais e mutáveis, a estética substituindo a ética, agressividade inusitada e imprevisível, exacerbação do individualismo e do narcisismo, resultando no não reconhecimento do outro, a objetividade prevalecendo sobre a subjetividade, tudo isto sustentado pela falta de sentido existencial que induz ao hiperdimensionamento e hipervalorização do aqui e do agora, onde habita um mundo de incertezas e insegurança que impossibilita a perspectiva de um futuro.


A depressão que embota o afeto já não aparece como patologia isolada, mas como patologia de uma época, fragmentando vínculos e impossibilitando o fluxo afetivo da mãe para seu bebê, impedindo portanto, uma constituição subjetiva estruturada, resultando em filhos com diversos graus de desvalimento. Por se tratar de um fenômeno de grandes proporções, o desvalimento passa despercebido e se torna característica constitutiva de uma maioria num mundo desvalido de subjetividade.







Notas de rodapé:



1 uma espécie de mandala usada para meditação

2 Tara é a mãe da compaixão, aspecto feminino de Buda, indissociável do estado desperto iluminado

3 No hinduísmo, é a deusa da morte, a última etapa que o mundo atravessa.

4 Deusa da mitologia nórdica, encarregada de enviar almas para o inferno.





Referencias Bibliográficas



BAUMAN, Z. Modernidade Liquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001
BIRMAN, J. A Dádiva e o Outro: Sobre o Conceito de Desamparo no Discurso Freudiano. Physis Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro: 1999. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/physis/v9n2/02.pdf> acesso em 08 de Setembro de 2012
COSTA, G. P. A clínica psicanalítica das psicopatologias contemporâneas. Porto Alegre: Artmed, 2010
FRANKL, V. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 1991
FREUD, S. (1895) Projeto de uma psicologia científica. Rio de Janeiro: Imago, 1995
GREEN, A. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. São Paulo: Escuta, 1988
LEVISKY, D. L. Aspectos do processo de identificação do adolescente na sociedade contemporânea e suas relações com a violência. In:___. Adolescência e Violência. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000
LIGER, O. Um olhar psicanalítico sobre a contemporaneidade e suas emergências. Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2010
LIPOVETSKY, G. La era del vacío. Barcelona: Editorial Anagrama, 2003; Petrópolis: Vozes, 2002
ZIMERMAN, D. E. Manual de técnica psicanalítica: uma revisão. Porto Alegre: Artmed, 2004